O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
O mais difícil para os marxistas, mormente na era do imperialismo tão ricamente atualizada por Lênin, tem sido precisamente a capacidade de desenvolver o pensamento teórico-político em função da concretude de dada formação social complexa. Isso fez a fortuna de Lênin, desde O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, até a teoria do elo mais débil e a rica noção de transição – infelizmente pouco explorada em suas consequências -, para ficar em exemplos notórios. Igualmente a de Gramsci, com seu bloco histórico, que levou o PCI à maior magnitude política entre os PCs europeus ocidentais. É o que explica também o interesse genuíno no marxismo latino-americano com pensadores como Mariátegui, para ficar em um exemplo magno. Não se pode entender o marxismo-leninismo fora dessa fecundação, ainda mais em território com uma história tão rica e original como a da América Latina. O pensamento da III Internacional, em que pese seu comprometimento revolucionário, com frequência engessou as mentes com respeito a esses desenvolvimentos tão necessários.
Por essa razão, o pensamento de Ignácio Rangel, no plano econômico e político, como autor marxista de vertente leninista, mas extremamente singular, faz dele uma indispensabilidade para todo aquele que quer interpretar o Brasil à luz de um movimento transformador. É mesmo um pensamento do qual a academia não pode esconjurar-se, dado o respeito que lhe devotam inúmeros autores que pensam o Brasil, seja de que coloração forem. É um dos grandes intérpretes do Brasil, polêmico certamente, mas também por isso necessário à luta de ideias.
Elias Jabbour conhece esse pensamento a fundo e se fez inseminar pelas suas imensas potencialidades, ligando-o à reflexão das contradições históricas e atuais do país. A luta de ideias só se beneficia com a posse de um espírito aberto com respeito a pensadores como Ignácio Rangel e todo marxista precisa ter uma atitude crítica, na mais elevada acepção do termo, com respeito a tudo que possa desvendar a esfinge brasileira, mais ainda por ser Rangel alguém que se colocou, repito, numa perspectiva marxista comprometida com a nação brasileira e com sua transformação num rumo socialista.
Publico abaixo uma contribuição sintética, por isso ainda mais útil, de Elias Jabbour, postada em Vermelho. Que seja um aperitivo para abrir o apetite de todos nós comunistas.
Ignacio Rangel, 100 anos: “a nação como categoria histórica”
Elias Jabbour *
Prestar uma homenagem a Ignacio de Mourão Rangel por passagem de seu centenário de nascimento neste curto espaço não é uma tarefa das mais fáceis. Honestamente, fiquei em dúvida com relação ao título desta coluna. Por um instante pensei em titulá-la como “Ignacio Rangel, 100 anos: o caminho brasileiro ao socialismo”.
Preferi deixar como está. É uma forma de exprimir o essencial do pensamento deste grande brasileiro nascido na pequena cidade de Mirador, no estado do Maranhão a 20 de fevereiro de 1914. Tratou-se de um marxista muito peculiar que como homem de um tempo deixou-se influenciar sobremaneira pelo econômico e político de Lênin, além de economistas burgueses longe da vulgaridade como Keynes e Schumpeter.
Não tenho nenhuma resignação de afirmar que Ignacio Rangel foi o mais brilhante pensador brasileiro do século 20 e, certamente, o marxista mais completo e original a pintar pelas bandas da América Latina. E se me perguntares a razão desta “adjetivação”, respondo com clareza que Ignacio Rangel foi o pensador que melhor sintetizou as leis do funcionamento de uma formação social complexa como a do Brasil o que o possibilitou a colocar o dedo no futuro de nosso país conforme as concessões à iniciativa privada das infraestruturas estranguladas e o surgimento de um incipiente mercado de capitais demonstram.
Influenciado por Vladimir Lênin, criou uma noção exata da categoria de formação social e sua lei fundamental no Brasil num mix de atraso e dinamismo que confere, até hoje, a existência do avançado em detrimento do pretérito em todas as variantes da base econômica e da superestrutura. Assim, não caiu na tentação da vã explicação, estruturalista e dependentista, da relação entre estagnação e atraso tão comum entre nosso pensamento dito progressista.
A sofisticação de seu jeito de pensar e escrever sem as amarras da academia e da 3ª Internacional expressou-se na observação de fenômenos macroeconômicos complexos (inflação) partindo de características de nossa formação social: forte formação de capital no seio da fazenda de escravos + substituição de importação precoce pré-industrial + especialização da agricultura + industrialização sem reforma agrária + teratológico exército industrial de reserva + baixa propensão ao consumo das classes trabalhadoras = inflação por preços administrados de produtos agrícolas e industriais.
O fio condutor de sua obra é a sua tese da dualidade. Trata-se de uma engenhosa construção analítica que articula contribuições do materialismo histórico marxista, de Smith, de Keynes, da teoria dos ciclos e das crises de Kondratieff e Juglar à formação econômica brasileira, no intuito de entender sua dinâmica e especificidades.
A partir da tese da dualidade, para efeitos analíticos, são classificados em outras quatro as grandes teses de Rangel, expressões de suas interpretações sobre a economia brasileira, a teoria econômica e o desenvolvimento econômico, social e político: 1) sobre a Dinâmica Capitalista, que articula as teorias dos ciclos, das crises e a questão tecnológica ao movimento da economia brasileira e mundial; 2) a tese da Inflação Brasileira, contida em seu famoso livro do mesmo nome, transformada, pela sua densidade analítica, nível de formulação e grau de universalidade em uma verdadeira teoria da inflação, feito inigualável na história do pensamento econômico brasileiro; 3) acerca da Questão Agrária, onde altamente influenciado por Lênin, interpreta os determinantes da crise agrária brasileira e suas conseqüências para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil e 4) sobre a Intervenção do Estado e Planejamento, onde analisa o valor do planejamento do setor público como fator de equilíbrio econômico global e de redução de ociosidades setoriais na economia.
Poderia ficar até amanhã escrevendo sobre a monumental obra de Ignacio Rangel, que se constituiu num verdadeiro libelo ao desenvolvimento. Quero, no espaço que me resta, somente colocar alguns questionamentos sobre as razões de se estudar a obra de Rangel: 1) para entender as razões de nosso não realizado desenvolvimento; 2) para entender, partindo da constatação de transições lentas, graduais e seguras no Brasil, a necessidade de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (capitalismo de Estado) como o caminho brasileiro ao socialismo; 3) para compreender a historicidade tanto do mercado quanto da iniciativa privada, inclusive no que tange a transição socialista no Brasil; 4) para que não façamos política com a “ciência” dos neoliberais: a inflação no Brasil não é de demanda e a poupança, definitivamente, não é pressuposto ao investimento; 5) para proscrevermos, de uma vez por todas, a falsa noção socialdemocrata que distingue crescimento e desenvolvimento 6) para observarmos o estado da arte do marxismo no Brasil: Marx não pode ser reduzido a um mero pensador da questão social e Lênin não deve ser objeto de redução a um punhado de obras políticas datadas e 7) O marxismo-leninismo deve ser um corpo científico capaz de ampliar nossa visão de mundo e realidade e não algo tomado como um dogma pobre e doente como constantemente se vê.
Por fim, o que é para Ignacio Rangel a nação? O que é para ele e como se constitui a transição do capitalismo ao socialismo e desta ao comunismo? Segue trecho interessante a este respeito retirado de “Recursos Ociosos na Política Econômica”:
“A nação é, sem dúvida, uma categoria histórica, uma estrutura que nasce e morre, depois de cumprida sua missão. Não tenho dúvida de que todos os povos da Terra caminham para uma comunidade única, para ‘Um Mundo Só’. Isto virá por si mesmo, à medida que os problemas que não comportem solução dentro dos marcos nacionais se tornem predominantes e sejam resolvidos os graves problemas suscetíveis de solução dentro dos marcos nacionais. Mas não antes disso. O ‘Mundo Só’ não pode ser um conglomerado heterogêneo de povos ricos e de povos miseráveis, cultos e ignorantes, hígidos e doentes, fortes e fracos”.
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