O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Estava fora do país quando li a notícia do falecimento de Jorge Wilheim. Foi-se um amigo, com quem eu e minha companheira partilhávamos frequentemente caminhadas no Parque da Água Branca, e uma agradável estada em sua casa de Campos do Jordão, com sua companheira Joana e a filha Ana.
O arquiteto, urbanista e servidor público convicto merece as homenagens dos brasileiros e especialmente dos paulistanos. Vindo de Trieste, onde nasceu, filho de judeus, a bagagem cheia das agruras da época, fez-se um brasileiro de vanguarda, homem de múltiplos instrumentos, um pensador lúcido até a medula, de convicções políticas francas, desde seus tempos de marxismo até os tempos atuais de humanismo radical. A conversa inteligente, o interesse genuíno pelo trabalho e pelas humanidades, a visão ampla e sem sectarismos, isso será sempre uma lembrança de Jorge.
De sua passagem pela política, como secretário de Estado e depois da Prefeitura, ficaram obras notáveis de urbanismo e planejamento, como o Anhembi, o Páteo do Colégio e o Vale do Anhangabaú novo, o Plano Diretor de São Paulo e a projetada candidatura da cidade às Olimpíadas em 2002-2003. Pensou São Paulo como poucos – Jorge era, desse pugilo de urbanistas que planejaram Sampa, um dos mais destacados e comprometidos.
Sua obra é um patrimônio sobre urbanismo, desenvolvimento e planejamento da vida urbana, contra a intolerância, desemprego e exclusões que marcam a humanidade desde sempre. Mas, acima de tudo, era sua personalidade que me inclinava à admiração, isento de sectarismos, como disse, sempre disposto a ouvir, valorar o que lhe parecia importante e estimular a todos quantos pudessem fazer progredir o fazer humano em prol da maioria da sociedade.
Seu livro O caminho de Instambul me apaixonou. É uma amostra de sua meticulosidade, espírito inquieto e criativo, profissional competente e apaixonado, quando secretário-geral adjunto da Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (a Conferência de Instambul – 1996), para deixar como legado uma impressionante vitória que inseriu o tema para sempre nas pautas de governantes e Estados.
Acho que Jorge opunha ao pessimismo da razão o otimismo da vontade. Raquel Rolnik, outra eminente profissional do ramo, homenageando-o, disse que sua passagem marca o fim de uma era. Digo eu que Jorge via o fim de um mundo de modo muito fecundo. É esse o título do apêndice lúcido que ele apôs ao livro citado: Nosso fecundo fim-de-mundo, com sete teses que a ninguém é dado desconhecer para pensar os tempos contemporâneos inseminando o futuro. Que, para ele, seria de algum modo mais humano e desalienado.
Deixo com vocês as teses. Levo de Jorge as lembranças de um lutador pela liberdade e justiça. Espero que com o debate do Novo Plano Diretor para São Paulo – o qual ainda auxiliou nos últimos meses – ele possa receber da cidade as homenagens devidas para imortalizar sua memória.
Vejam também o artigo de 2009, na FSP, sobre o fecundo fim de um mundo: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/10.028/1807
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