O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Conversa.com Ângela Guimarães, jovem e ativa comunista de nosso tempo, é o que ofereço aos leitores neste fim de semana.

Ângela, quem é você?
Eis uma pergunta dificílima… Poderia dizer que sou uma pessoa de hábitos simples, alegre, hiperativa, brigadora e movida a desafios. Sou natural de Salvador-Bahia, apaixonada pelo Nordeste e pelo Brasil, mas também pela América Latina e continente africano devido à nossa ancestralidade. Tenho um milhão de amigas e amigos, sou apaixonada por eles e valorizo muito a amizade na minha vida.
Tenho sorte de ter nascido numa família de gente honesta, alegre, simples e solidária. Meu pai sempre foi de esquerda e aprendi a ser comunista em casa e do lado da minha família materna temos muitas mulheres de fibra – minha avó, mãe, tias e primas – que romperam as amarras do racismo e do sexismo para abrir espaço para o lugar social e político que ocupo hoje. Tudo isso se consolidou e ampliou com a minha entrada no PCdoB.
És muito jovem, não é mesmo? Como foi sua iniciação política?
Agradeço pelo muito jovem, mas a bem da verdade é que já estou na casa dos trinta (risos). Na primeira eleição da retomada democrática no Brasil, em 1989, participei da campanha a presid
ente entre as crianças do meu bairro. Ali foi um importante despertar, estimulada pelos adultos da comunidade. Em seguida participei de grupos de jovens ligados à Igreja católica, mas sem vinculação direta com as pastorais, ao lado da luta comunitária em defesa de mais espaços e oportunidades de lazer e cultura para a juventude do bairro. Como o Estado não se fazia presente, nós, adolescentes e jovens, montávamos grupos de dança e teatro, promovíamos as festas populares, dentre outras ações.
Na escola durante o ensino médio ajudei a reorganizar o grêmio, era o meu ultimo ano na escola. Já na universidade é que de forma orgânica me vinculei à militância estudantil e consequentemente ao PCdoB e à UJS, no ano 2000, em que entrei na Universidade Federal da Bahia no curso de Ciências Sociais. Participei duas vezes do CA, fui presidenta em 2004, participei das jornadas da Revolta do Buzú em 2003, lutas pela Reforma Universitária em 2003/2005, fiz parte de duas gestões do Comitê estadual do PCdoB da Bahia e uma vez do CM de Salvador, além de integrar as direções da UJS municipal da qual fui presidenta (2008-2010), estadual (2004-2010) e nacional (2006-2010 e 2012-2014).
Concomitantemente, também participei das lutas do movimento negro como filiada e dirigente da Unegro baiana e nacional, em especial a luta pelas cotas raciais no ensino superior e contra o extermínio da juventude negra.
Então, hoje estou mergulhada na política institucional, mas minha real origem é do movimento cultural e também religioso e comunitário – ainda antes da grande escola que foi o movimento estudantil universitário.
Em que condições sociais você se fez uma militante política? Sofreu preconceitos?
A militância além do compromisso ideológico com os rumos estratégicos do país e do mundo, é também uma grande paixão para mim, então desde muito tempo em minha vida, viver é militar, defender bandeiras, causas, organizar a luta, participar de passeatas, passar em salas de aula, promover a transformação social. Então mesmo diante das dificuldades da vida como conciliação entre trabalho, estudos e militância durante a universidade, em seguida as contradições com a vida familiar e os projetos pessoais, sempre fui aprendendo um jeito de fazer essa conciliação.
Preconceitos, acreditem, sofremos todos os dias…. A invisibilidade das mulheres negras em espaços de poder e no conjunto da sociedade é enlouquecedora, a desconfiança de muitos pelo fato de jovens como eu ocuparem espaços estratégicos, às vezes também por ser nordestina, enfim são muitas as faces do racismo, sexismosexismo e xenofobia que enfrentamos diariamente, desde o começo da militância no CA – quantas histórias… – até agora vivendo o dia a dia na Esplanada dos Ministérios. Não é fácil, mas não desisti!
UJS: o que significou nessa trajetória?
A UJS é a grande escola do socialismo, um lugar de grandes aprendizados diários e cotidianos, um lugar de empoderamento de gente tão jovem em que não há limites para sonhar, aplica-se a esta organização revolucionária juvenil e socialista a famosa frase “sem saber que era impossível, foi lá e fez!”. Nela, vi minha indignação individual se somar a várias outras, se transformar em ação política e produzir mudanças na sociedade. Na UJS aprendi e aprendo praticamente tudo a respeito das lutas políticas e ideológicas do país e do mundo e confirmo a ousadia e disposição revolucionária da juventude para mudar o nosso país.
Além disso, devo a ela grande parte das amizades/irmandades que tenho hoje espalhadas em todo o Brasil e mundo e também a convicção revolucionária que orienta as minhas ações cotidianas. Diria que a UJS me fez uma militante mas sobretudo um ser humano melhor.
Uma de minhas satisfações muito pessoais foi ter você como integrante do Comitê Central eleito no 13° Congresso. Que significou isso para você?
Agradeço muito a deferência e o carinho. Foi uma grata surpresa a indicação, pois não esperava integrar o CC tão nova… Para mim foi e está sendo um enorme aprendizado e grande oportunidade política fazer parte de tão privilegiado espaço da direção, poder contribuir com as reflexões e decisões que orientam as ações partidárias em diversos âmbitos, jogar papel no crescimento do nosso partido, na sua influência entre setores formadores de opinião e entre amplas parcelas da massa. Enfim estou mergulhada de cabeça nos desafios políticos e organizativos partidários!
Você está em papel destacado na CONJUVE…
Por orientação e definição partidária componho desde 2011 a equipe do Governo Dilma na tarefa de Secretária-Adjunta Nacional de Juventude e a cada dois anos assumo a presidência do Conjuve que é o espaço de controle social das políticas de juventude e também um importante espaço de articulação dos segmentos juvenis, movimentos, Organizações, ONGs, fóruns, etc.
Em relação ao Conjuve o desafio maior é consolidá-lo como um espaço representativo que repercuta as principais demandas da juventude brasileira e fortalecer sua incidência/influência no conjunto do governo para que consigamos de fato dar prioridade à juventude na agenda política nacional. Fazemos isso com um variado número de atividades pelas cidades, com campanhas em torno de temas como o estatuto da juventude, a luta contra o genocídio da juventude negra, contra a redução da idade penal, dentre outros. Com estas ações desde 2005, ano de criação do Conjuve temos conseguido muitas vitórias.
E também na luta contra a discriminação racial…
Em relação à luta antirracismo acredito que estamos num importante momento de emergência deste tema para o conjunto da sociedade brasileira. Comemoramos dez anos de uma política nacional de promoção da igualdade racial e importantes resultados podem ser contabilizados como a aprovação da lei que reserva cotas para negros nas universidades públicas, a implementação da lei 10639/03 que institui obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana, a instituição de uma política nacional de saúde da população negra, o reconhecimento e titulação das terras de comunidades quilombolas, os editais específicos à arte e cultura negra, o Plano Juventude Viva que busca prevenir e evitar mortes de jovens negros, a recente aprovação das cotas para negros/as nos concursos públicos, dentre outros. Entretanto, mesmo com este leque expressivo de políticas publicas o racismo continua a ser um entrave ao pleno desenvolvimento do Brasil.
Este ano tem sido bastante ilustrativo deste fenômeno com os recentes casos de racismo no futebol – Arouca, juiz Márcio Chagas, etc – e com o recente caso da trabalhadora Claudia Ferreira da Silva brutalmente assassinada a tiros pela PM do Rio de Janeiro e depois arrastada por mais de 300m, numa imagem que remonta aos piores anos do Apartheid sul africano bem como ao nosso longo e famigerado período escravista. Este cenário nos exige a efetivação de medidas ainda mais estruturantes para o enfrentamento ao racismo e creio que passou da hora de envolvermos toda a sociedade num debate sobre a necessidade emergencial de outra política de segurança publica nas cidades, estados e país. Acrescentaria ao programa do PCdoB esta como mais uma das reformas estruturantes e democráticas – a Reforma da segurança Pública – pela qual a sociedade clama quando se revolta diante do fato acima citado ante a brutalidade com que a PM, mas não só ela, trata cotidianamente a população mais pobre, sobretudo negra e de periferia, mas também diante dos abusos cometidos em repressão a manifestações populares, outra ação histórica das forças de segurança.
O que você acha da juventude hoje? Rolezinhos, black blocs, anseios, anarquismo. Espelhamento nos tempos anteriores mas olhando para o futuro? Fiz essa mesma pergunta aos jovens aqui no blog.
O que estamos vendo agora, nas ruas, na mídia, no Governo e em todo o lugar nada mais é do que a chegada à cena publica de um segmento cuja demanda nunca foi completamente atendida pelo Estado, ou melhor só foi parcialmente atendida na ultima década a partir dos governos progressistas e democráticos de Lula e Dilma.
Começamos a primeira década do ano 2000 afirmando que estávamos – e estamos – vivendo o chamado “bônus demográfico”, ou seja, é o momento que contamos com a maior quantidade de jovens no conjunto da nossa população, somos cerca de 27% da população do pais. Frente a este fato demandamos ação organizada do Estado por meio de políticas públicas que viessem a considerar a juventude como sujeito estratégico no processo de desenvolvimento nacional. Com a eleição de Lula vimos um conjunto de nossas demandas começarem a ser atendidas com a expansão e interiorização das universidades públicas e escolas técnicas, as bolsas parciais e integrais do Prouni, o acesso e circulação da produção cultural juvenil com os pontos de cultura, o fortalecimento do acesso a práticas esportivas, a elevação da qualificação e formação profissional da juventude dentre outras medidas que impactaram positivamente na vida de milhões de jovens brasileiras/os. Mas tudo isso não foi suficiente, por isso a continuidade das lutas coletivas da juventude pela ampliação da presença do Estado na garantia de direitos básicos como saúde, educação e mobilidade urbana, assim como espaços culturais, esportivos e de lazer.
Observo com entusiasmo essa grande mobilização juvenil e também como oportunidade de disputarmos as suas consciências para um projeto de nação soberana, desenvolvida, democrática e justa, pois para nós comunistas a juventude sempre foi vanguarda, mola propulsora de importantes avanços e transformações em todo o mundo.
Mas as manifestações revelam também um sentimento crítico negador da política, ou ao menos dos partidos políticos…
Todas estas novas manifestações juvenis são legítimas e tiveram este imenso caldeirão cultural por base, é uma juventude que está querendo ser vista e ouvida na cena pública e que também está experimentando e buscando caminhos de se constituir enquanto sujeitos na sociedade. Não podemos negar entretanto, que também por serem sujeitos em formação, sofrem influências das mais variadas inclusive de segmentos/grupos que absolutizam a violência, de outros saudosos do nosso passado antidemocrático, dos que são “contra tudo e todos”, enfim trata-se de uma juventude em disputa que embora tenha mais acesso à informação é também uma geração com um elevado grau de desconhecimento do nosso processo de formação histórica e das lutas travados pelas bravas e bravos brasileiros para que hoje nós possamos estar nas ruas, nas redes e na rampa a conquistar os avanços econômicos, sociais e democráticos que vivemos.
Então, precisamos todos, de agora em diante, ter um olhar especial a este público considerando suas demandas e abrindo espaços para a sua participação. Não estamos lidando com o mesmo perfil de jovens de uma década, uma década e meia atrás. O perfil da juventude brasileira mudou bastante nestes anos de avanços econômicos, sociais e democráticos, forjou-se um sujeito que acredita nas ruas como palco da conquista de direitos, tem acesso a maior escolarização, a melhores bens de consumo, que produz e circula suas próprias informações, muito mais que receptor ele/ela é hoje também produtor de conteúdo e informação e aqui o acesso a novas tecnologias desempenha papel fundamental, enfim, é outro jovem assim como também é outro povo, no qual aquele modelo de povo desinformado, alheio à realidade, submisso, não se encaixa mais.
Os jovens hoje são muito meritocráticos – aquela de vencer pelo próprio esforço – mas ao mesmo tempo precisam e sabem que precisam igualdade de oportunidades. Como você vê esse embate?
A ideologia da meritocracia foi habilmente disseminada em todo a sociedade brasileira ao longo de muitos séculos, sem que houvesse competição com outros valores e outras cosmovisões, assim, a juventude e o povo acabaram por tomá-la como verdade absoluta.
Para superá-la precisamos fazer uma vigorosa disputa de valores na nossa sociedade, explorando os mais variados meios, inclusive as redes sociais, território de embates políticos e ideológicos. Mas acredito que nem tudo está perdido, pois há temas com os quais começamos a década perdendo o debate e hoje viramos o jogo, a exemplo do debate acerca das cotas raciais. Iniciamos os anos 2000 com várias contradições inclusive entre a esquerda e grande desconhecimento e preconceito entre a maioria da população, hoje contamos com vigoroso apoio popular a esta importante medida. Compramos o debate com a sociedade e vencemos, mesmo em condições desiguais.
Projetando o futuro, eu arriscaria dizer que num cenário de crise internacional do capitalismo aliado a um certo esgotamento do modelo de gestão deste ciclo político (baixa correlação de forças e falta de decisão política do partido majoritário na aliança na realização das reformas que acelerem nossas transformações) que cabe a nós comunistas a ousadia de traduzir o nosso programa partidário por um novo projeto nacional de desenvolvimento em bandeiras que possam ser assimiladas pelo conjunto do povo e forças progressistas, retirar o país deste debate rebaixado no nível econômico e propagandear o socialismo, como esta utopia e projeto de sociedade por meio do qual a juventude e o povo serão protagonistas, prioritários. Creio que ao darmos este passo importante contribuiremos para aproveitar essa vigorosa energia juvenil em reflexões e ações que impulsionem transformações profundas no nosso país.
Quais suas preferências intelectuais, musicais, de lazer? Qual o time do coração?
Em termos culturais sou muito eclética, curto desde a geração dos 1960’s e 1970’s até coisas mais atuais. Vou bem de Chico, Gil, Vandré, Paulinho da Viola, Milton e Djavan passando por Clube da Esquina e chegando até os Racionais MCs, Criolo e Emicida, Céu, Marisa Monte, sem esquecer dos baianos Lazzo, Margarete e o samba de muita gente boa de Martinho, Leci, Diogo Nogueira e outros.
Leitura, vou de tudo um pouco deste literatura brasileira e latino-americana, clássicos da política, história e sociologia muita coisa ligada ao trabalho que atualmente desenvolvo. Tenho lido mais poesia ultimamente, sobretudo Cadernos negros e autoras contemporâneas como Rita Santana e Cristiane Sobral, que adoro junto a Elisa Lucinda e Isabel Allende.
Futebol é uma graaaaaandeeee paixão! Sou São-paulina desde a infância, é o time da minha família, sou dessas que escala o time, briga com o técnico, vai a estádio, acompanha a tabela, tira sarro dos adversários, sofre e comemora junto com o time do coração. Durante onze anos ininterruptos cultivei um ritual de assistir o São Paulo FC todas as vezes que ele ia jogar na Bahia, o acompanhava desde a sua chegada no aeroporto, hotel, estádio e viagem de retorno.
Sou torcedora da seleção brasileira e tenho certeza que Governo e povo farão a #CopaDasCopas, a #CopaSemRacismo e que seremos #Hexa, Felipão nosso grande comandante no futebol não irá nos decepcionar!
Onde você imagina estar nos próximos cinco anos? Quanto à vida pessoal, profissional e política futura, o que a aguarda?
Posso estar em qualquer canto do Brasil e do mundo (risos)! Tenho mesmo essa disposição, entretanto pretendo para o próximo período combinar minha tarefa política com a retomada dos estudos acadêmicos, pretendo cursar um mestrado a partir de 2015. Além disso, imagino que serão anos definidores para os rumos do país, em que precisaremos colocar o debate ideológico, a luta de idéias no centro da nossa tática e assim trazer milhões de novos filiados ao PCdoB e ao campo progressista bem como consolidar as conquistas sociais e implementar muitas outras a exemplo das urgentes reformas politica e dos meios de comunicação.
Além disso, imagino que poderei continuar contribuindo firmemente com o desenvolvimento do Brasil em diversos tipos de tarefas tanto em âmbito institucional quanto dos movimentos sociais. Estou aberta a novos desafios!
Republicou isso em A Estrada Vai Além Do Que Se Vê.