Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

Partido: métodos, concepções e linha

8º Encontro

Um interessante debate vem tomando forma e corpo, fruto da onda de choque do 8º Encontro sobre Questões de Partido, mas também dos inúmeros problemas que confrontam a construção partidária no cotidiano.

Trata-se da famosa questão dos métodos e estilos de direção, sobre que tanto já se escreveu. É de fato questão importante, que não cessa de se repor a cada patamar de avanço da atividade do partido. Nem sempre, porém, ela é tratada em toda a inteireza.

Sabe-se que métodos de direção podem travar a aplicação da rica linha política e de construção partidária e, de fato, isso ocorre com uma frequência inquietante ainda hoje. A questão de pôr a política no comando, unir com persuasão o coletivo num ambiente de total liberdade de opinião, não transformar contradições secundárias em principais, respeitando as instâncias e suas decisões coletivas, dando voz à militância e mantendo-a, para isso, organizada etc, já estão há muito tempo incorporados ao arsenal de métodos de direção e, mesmo assim, comprova-se sempre que sua ausência causa prejuízos consideráveis à eficácia da ação dos comunistas e construção partidária.

O PCdoB, sem dúvida, deu grande salto de conteúdo em sua maturação. O papel e lugar político dos comunistas foi firmado em bases superiores com o Programa Socialista, vértice de sua identidade, ideologia e política transformadora para o país, arma para a luta política cotidiana sem perder de vista o objetivo essencial de sua razão de existir. Em funcionalidade com ele, o Estatuto renovou o arsenal da vida partidária, e a Política de Quadros realizou uma síntese notável de avanços para a contemporaneidade com base na rica experiência de 92 anos de existência do PC do Brasil. A linha de estruturação partidária igualmente se tornou mais complexa e íntegra. Tudo isso enriquece os métodos.

Mas isso não pode significar que a assimilação e apropriação desses preceitos sejam uniformes em toda a extensão partidária. Por isso o debate é reincidente, tanto mais agudo quanto se trate de colocar em patamar superior a organização política neste ou naquele lugar, e assume formas particulares a cada situação de ultrapassagem de fronteiras.

Entretanto, muitas vezes se atribui a métodos mais do que é permitido. Métodos inferem, como base, questões de concepção. Se esta é pouco compreendida, ou assimilada ou respeitada, se não se leva em conta a linha política e de construção partidária, não há métodos capazes de salvar a situação.

O atual estágio do partido, após o 13º Congresso e o 8º Encontro Nacional referido, indica duas formas particulares que assume hoje o debate sobre métodos de direção, envolvendo uma propriamente de concepção a firmar e duas propriamente de métodos a deslindar.

A concepção que “faz falta aos métodos”, por assim dizer, é a de que não se alcançará outro patamar de construção partidária sem conjugar as linhas de acumulação de forças já famosas, e assentá-las em dois trilhos, os da linha política traçada em conjugação com a linha político-organizativa. E mais: sem que todos os quadros, atuem onde atuarem, não liderarem ambas as linhas perante todo o partido. Essa a consideração autocrítica feita no 13º Congresso, que tem os quadros dirigentes de todos os níveis e papeis como protagonistas. Se isso não amadurece como concepção e prática ao nível das direções, os métodos de direção não os refletirão e não se ultrapassam fronteiras. No fundo, isso quer dizer que o maior capital que temos os comunistas será sempre o papel do partido, sua força, tenacidade, clareza e convicção coletiva, mais que os papeis destacados que cada um de seus membros possa ter alcançado.

De método propriamente dito, o que mais vai se destacando no debate, visto na sua essência, é que cada vez mais a política de quadros precisa se instituir como centro da direção organizativa. Isso é mais fácil de dizer do que conceber todas as suas implicações. Essencialmente, precisa-se dirigir mais gente, compor e escalar a rica estrutura de quadros em seus papeis diversificados para não só assegurar a integridade partidária como também sua ação política, social e cultural na sociedade. Ou seja, bem vistas as coisas, no partido dirigimos pessoas, para as quais se precisa traçar projetos políticos e papeis definidos, levando em conta suas especificidades, articulando-os num todo coerente e eficaz. Daí que o papel específico da organização precisa se dar conta da centralidade da política de quadros e, como já se disse, todos os quadros de direção precisam liderar o discurso da construção partidária em ligação com a linha política. Quem dirige instâncias são as demais instâncias com os propósitos decididos por todos e não é tarefa apenas da política de organização mas de todos os dirigentes.

Isso conduz à segunda questão de métodos: o excessivo delegacionismo de instâncias verticalizadas. Quer dizer, as decisões são processadas de alto a baixo por instâncias, uma delega à sucessiva na escala vertical transmitir os rumos da ação para as organizações partidárias. Isso não é errado em si, o partido é de fato um sistema de organizações partidárias coordenadas e centralizadas de alto a baixo na ação política. Mas torna distante os dirigentes dos militantes de base ou do povo, pode diluir ou mascarar, na cadeia de transmissão, o reconhecimento das dificuldades e potencialidades da orientação política.

A sociedade, por arte das tecnologias de informação, se está fazendo mais horizontal em suas interações e relações, os papeis sociais se combinam mais na condição de trabalhadores, jovens e mulheres que confluem cada vez mais para um único sujeito social. Isso solicita mais horizontalidade na troca de experiências políticas e sociais. A implicação organizativa disso é muito grande. Exemplos destacados disso são os Fóruns de Movimentos Sociais, com sua transversalidade para dar conta de atuar em complexa sociedade civil, combinando a atuação dos movimentos sociais propriamente ditos e mais estruturados, com a intervenção articulada em múltiplas causas que caracterizam a luta social hoje. Outro exemplo, mais diretamente organizativo, são os Fóruns de Macrorregião instituídos na política organizativa: quanto mais o partido se expande, mais difícil imaginar como dirigi-lo sem o concurso dessa forma organizativa.

O mesmo sucederá com os Fóruns de Quadros de Base apontados no 8º Encontro. O desenho organizativo hoje em qualquer capital, notadamente nas maiores, deve ser cada vez mais multiforme para abarcar as múltiplas formas de ação dos militantes na sociedade. Junto a organizações de caráter territorial e de categorias, emergem muitas formas possíveis de organizar a militância com coletivos de cultura, ciência, jovens, mulheres, além de fóruns e organizações de caráter especial, cabíveis no Estatuto e nem sempre cabíveis apenas em bases territoriais. Por isso, além de uma estrutura de comitês auxiliares de variados tipos nas grandes cidades e principalmente capitais, e junto com elas, essa forma organizativa de Fórum de Quadros de Base permite mais horizontalidade na generalização da experiência dos militantes, aproxima as instâncias dirigentes das bases organizadas e permite o passo decisivo proposto pelo histórico 7º Encontro Nacional sobre Questões de Partido: conferir a cada base organizada um projeto político definido, um quadro dedicado a articular a militância respectiva nesse rumo, uma pauta e agenda regular de ações, um controle também regular das dificuldades e êxitos que se apresentam. Aliás, esse é outro dos propósitos centrais da política de quadros – dar visibilidade e valoração aos quadros de base que enraízam o partido no povo e formam o esteio da ação dos comunistas.

Dificilmente o partido dará um salto de qualidade política e organizativa sem esse passo, destinado a enraizar e capilarizar a organização dos comunistas, constituir redutos políticos e eleitorais de influência. No fundo, trata-se de uma questão de maturidade do pensamento e prática do coletivo comunista. Ligam-se não só à linha traçada como também à concepção de um partido comunista de quadros e de massas de militantes, filiados, amigos e eleitores, como corrente de pensamento e ação na sociedade, lutando pela hegemonia de suas ideias programáticas e valores culturais. No seio dessa formação, a estrutura de quadros é o âmago do Partido Comunista, que governa toda sua estrutura, e a política de quadros é o vetor para isso.

Confluem aí, portanto, concepções e métodos, implicados na linha política e de construção partidária. Como se vê, maturar isso é um processo prolongado que envolve uma luta de ideias no interior do partido. O que chama a atenção é que nem sempre os preceitos da política organizativa do PCdoB são tratados com a ênfase devida. Por mais que se aplique a situações concretas diferenciadas, há um propósito permanente nela, e o melhor é debater francamente como e em que ritmo implementá-la. O que não se pode é contorná-la por desconhecimento, ou por não debatê-la abertamente ou, ainda, por resistências surdas que atrasam o papel do partido. 

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

3 comentários em “Partido: métodos, concepções e linha

  1. Eduardo Germano Felker Andreis
    22 de abril de 2014

    É o desafio de ter uma ação dialética, não nos bastam os preceitos comunistas se não formos revolucionários. O Partido acertadamente cresce e acumula forças em longa experiência de vida legal, mais uma novidade no desafio organizacional. Ótimo artigo, absolutamente pertinentes todas as preocupações aventadas. Forte abraço.

  2. Silvany Braga
    23 de abril de 2014

    Precisamos colocar o bloco nas ruas para garantir e colocar em prática sobre as reividicações da população brasileira do levante de julho sobre os descasos na educação publica, saúde publica, segurança publica, impostos abusivio, alto custo de vida, e redução da cagar horaria de trabalho, sem redução de salário punição para os corrupto, e á implementação de uma constituite exclusiva constituida pelas forcas democratica junto a sociedade civil organizada. Não vomos deixa que os setores conservador se aproveite do inicio da copa e influenciem a população ir as ruas e, depois nós vomos ficar dizendo que isto é coisa da direita conservadora.

  3. Agamenon T. Sarinho
    29 de abril de 2014

    Essa é uma questão cada vez mais urgente dentro do Partido. Vivemos uma realidade de ampliação da base de filiados e carência de quadros preparados para dirigir essa base. A geração de quadros revolucionários, experientes, forjados na luta já não dá conta das demandas de hoje. Uma nova política de quadros, que enxergue a heterogeneidade de valores dentro do Partido e saiba, considerando-a, atribuir funções e responsabilidades é o caminho para atender as necessidades crescentes e forjar os quadros temperados. Talvez tivéssemos evitado a evasão de tanto(a)s valoroso(a)s camaradas se há mais tempo tivéssemos assimilado a compreensão hoje expressa na nova política de quadros.

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