Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

México e Brasil – opções de inserção internacional

5 de mayo

Conheci o México e pude constatar sua riqueza cultural, base da identidade nacional, cultivada pela história de três mil anos de toltecas, olmecas, mayas, aztecas, depois a miscigenação com europeus, as atrocidades da Conquista assimiladas para compor um povo novo. Povo laborioso e ameno, que cultiva sua história com orgulho. Cidade do México tem mais de trezentos museus (São Paulo tem quase cem), afora os monumentos espalhados pelas alamedas, com que se deparam cotidianamente os mexicas.

Pude compreender o papel que teve a Revolução Mexicana na década de 1910 – embora quase toda sua história foi coalhada de revoluções desde a Independência -, e o papel que tiveram os governos republicanos desde então, com figuras incríveis em sua contraditoriedade como Jose Vasconcelos, iniciador da revolução educacional que marcou aquele tempo, toda a pujança da nova geração de artistas de expressão mundial – os muralistas entre outros, Juan Rulfo na literatura e tantos outros, o fabuloso Fondo que promove a atividade editorial até hoje -, o que faz uma diferença brutal com as elites brasileiras da mesma época, seguindo a negar a educação e a memória histórica para o povo. Essa foi uma diferença importante que vi: o cultivo da história, o cultivo dos símbolos da mexicanidade, o impulso da educação durante o século 20.

Mas me intrigavam o tempo todo as considerações comparativas da economia e da vida do povo. Uma certa pregação sobre os “tratados de livre comércio” como estratégia de inserção internacional. Afinal o México vive relações “carnais” com os EUA devido ao NAFTA – o acordo de livre comércio que já cumpre vinte anos, e persiste mesmo sob o novo governo do PRI, com Peña Nieto presidente. Curiosamente, nos pacotes turísticos o México já é enquadrado na América do Norte, o que é uma coisa bisonha.

Acerca disso, recomendo a leitura do artigo de José Luis Fiori no VALOR de ontem. A miragem mexicana é um alerta importante para desfazer equívocos e iluminar as opções que têm os países latino-americanos nestes tempos de retomada da ofensiva dos EUA no Continente, precisamente através da pregação das vantagens dos Tratados de Livre Comércio, incensados hoje, além de México, EUA e Canadá, também com o Peru, Colômbia e Chile.

Importante a análise crítica disso em ano de eleições presidenciais no Brasil. As oposições já disseram a que vieram. Aécio não tem medo da impopularidade: arrocho fiscal, diminuir o “tamanho da máquina”, emprego e renda do trabalho afinal precisam ser moderados… Campos declara sem rebuços “manter o tripé, inflação na meta, BC independente, diminuir a máquina”. Ambos, falando ao empresariado, querem integrar o Brasil “às cadeias globais de produção”. A questão é como: com projeto autônomo, soberano e próprio da condição continental brasileira, um global player, ou de forma subordinada? Essa experiência já se viveu: Menem, Fujimori, FHC… Volta ao passado?

Será bom ler o artigo de Fiori. Em resumo, comparando o “modelo mexicano” (1994-2012) com o chamado “modelo intervencionista brasileiro” (o de 2003-2012, Lula e Dilma):

  • Crescimento médio do PIB: Brasil 4,21% aa; México 2,92% aa.

  • Crescimento total da economia: Brasil 42,17%, México 29,29%.

  • Crescimento das exportações: Brasil 6,59% aa; México 5,45% aa.

  • Crescimento total das exportações: Brasil 65,95%; México 54,45%.

  • Crescimento das importações: Brasil 17,33% aa; México 6,75% aa.

  • Crescimento total das importações: Brasil 173,32%; México 67,54%.

  • Crescimento da renda per capita: Brasil 2,84%; México 1,42%.

  • Crescimento total da renda: Brasil 28,4%; México 14,26%.

  • Participação dos salários na renda: Brasil 45%; México 29%.

  • Criação de empregos: Brasil 16 milhões; México 3,5 milhões.

  • Pobreza absoluta: Brasil reduziu a 15,9%; México aumentou para 51,3%.

  • Investimentos diretos estrangeiros 2002-2012: Brasil aumentou em US$ 16,6 bi para 76,11 bi; México caiu de US$ 24 bi para 15,5 bi.

Por fim, refere Fiori, “a economia brasileira em 2013 cresceu 2,3%, uma das maiores taxas entre as grandes economias do mundo) enquanto a mexicana cresceu 1,1%. E conclui: “o elogio do México deve ser considerado um caso de má fé, fundamentalismo ideológico ou estratégia internacional? As três coisas ao mesmo tempo”.

A palavra com as oposições. Enxugar a máquina será reduzir salários e empregos? Ceifar o que vem acontencendo nas universidades brasileiras, desde o PROUNI até o poderoso investimento que vem sendo feito para a pós-graduação, pesquisa e ciência? Ou talvez no ensino técnico? Quem sabe nos investimentos – o papel do Estado é determinante até para o próprio aumento dos investimentos privados? Bolsa Família? Talvez recriando a PetrobraX? Ah, sim, na corrupção da máquina do Estado… mas qualquer análise desapaixonada disso precisaria questionar o conservadorismo do Estado brasileiro e do sistema político eleitoral, mantido pelo sistema corporativo, e não é exatamente isso que as oposições proclamam. Enfim, as opções estarão postas em debate, apesar de elas, as oposições, esconderem o jogo perante o eleitorado.

Nós já temos nossas opções em 2014 de um Brasil com amplas relações econômicas com o mundo, sob um projeto autônomo, com o qual enriquecer a democracia, a renda do trabalho e a integração da nossa América. Quanto ao México, dia 5 próximo é uma de suas datas patrióticas. Um povo que sofreu a guerra dos próprios EUA, de 1846 a 1848, que lhe surrupiou mais da metade do território; que após isso conheceu a guerra civil, que o levou à moratória e a nova guerra pela França de Napoleão III; que viu implantado aí o segundo império com um rei postiço; que chegou ao 5 de mayo, derrotando o Império francês na batalha de Puebla; que fez a Revolução Mexicana em 1910-11… um povo assim, será invencível em seu afã de liberdade, independência e soberania. É apenas questão de tempo histórico.

Leia a íntegra do artigo de Fiori em http://www.valor.com.br/opiniao/3532072/miragem-mexicana.

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

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