O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Este é o melhor livro que conheci em 2013-2014. Escrito por um homem íntegro, lúcido pensador revolucionário, cético consigo mesmo e tolerante com os demais, de uma honestidade intelectual como poucos. O Alfaiate de Ulm é uma possível história do PC italiano, o maior partido comunista do Ocidente, herdeiro de Gramsci, e que representou a esperança do povo comunista da Itália, uma comunidade de alto sentido de identidade, pertencimento, esperança e força política.
O número de insights e reflexões pertinentes fornecidas por Magri é fenomenal. Dá o que pensar todo o tempo, o tempo todo. Nem o próprio Autor teve a indelicadeza de julgar que estava certo em tudo que pensou e promoveu durante as décadas da história abarcada pelo livro – essa a elegância e penetrância do ensaio.
Mas é certo que ele abordou as questões essenciais, relacionando o panorama internacional, as metamorfoses do capitalismo, as agruras da evolução socialista na URSS (e a crise ulterior) e as evoluções políticas em seu país, na melhor tradição dialética de análise concreta e multilateral da situação concreta, isento de politicismo conjunturalista que se basta com a abordagem da superestrutura.
É pungente acompanhar a saga do PCI pelos olhos de Lúcio Magri, mas sempre fica a certeza de que ele o fez com rigor e paixão, a partir de um ponto de vista comunista, revolucionário e, mais ainda, sem se desvincular das manifestações sociais que foram tão pródigas na Europa nos anos 70-80. Sem romantismo, porém, ele disseca a crise que levou à Bolognina, o epílogo daquela rica experiência, quando se liquidou o partido. Magri não é isento, nem isenta seus parceiros, os erros de ambos. De todo modo, é honesto intelectualmente, e comprometido revolucionariamente.
O livro solicita uma resenha crítica mais aprofundada, que teria que abarcar ao menos o por quê um caminho nacional para o socialismo se perdeu em meio a ilusões ou taticismos descolados de estratégia transformadora; por quê nos grandes traumas que se interpuseram no movimento comunista nos anos 50-60 não se conseguiu distinguir ideologicamente dois caminhos opostos, mesmo que um deles com roupagem esquerdizante e outro modernizante; por quê não se conseguiu discernir nova evolução do sistema capitalista naqueles anos, que alavancaram a Europa nos “trinta anos gloriosos”… Débito geral do marxismo, diria, ou crise de um modelo que marcou a experiência revolucionária e de construção do socialismo naqueles marcos de tempo.
É claro que o tempo histórico clarificou muitas das questões que mobilizou a mente de Magri. Mas as questões permanecem desafiadoras para todos os marxistas e, nisso, o livro dá uma impagável contribuição. Sobretudo quanto à fibra e convicção ideológica que precisam ter, os comunistas, na luta titânica antissistema. Sem isso, não se vai a lugar algum.
Sem dizer de outro aspecto: a leitura prazeirosa, rica e viva da época; e o drama de saber que ele precisava terminar o livro para poder pôr fim à própria vida, promessa feita à sua companheira atingida por doença fatal.
Acompanhei a trajetória de Magri desde os tempos dos anos 1970. Ela me era instigante, mas só agora o compreendo bem. Estava no Congresso dos comunistas na Itália quando, durante o Informe do secretário-geral, chegou a informação de que Magri tinha, enfim, posto fim à vida. Foi aplaudido longamente, em transe. Só pude esperar o livro para fazer de fato um luto – muito fecundo com a leitura do livro.
Li também a resenha, cuja leitura recomendo, de Perry Anderson, homenageando o Autor. Menos isenta que a do próprio Magri – melhor o livro que a resenha – mas também alimenta o mesmo debate. Boa leitura.
O alfaiate de Ulm é um livro fundamental.
Lucio Magri por Perry Anderson
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