O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Os custos-benefícios das lutas são sempre políticos, queira-se ou não, tenham consciência disso ou não, os ativistas sociais. Afinal, leva-se água ao moinho alheio mesmo sem o saber.
Os movimentos sociais têm um longo aprendizado passado, que os fizeram merecedores de apoio de todo o povo brasileiro. Seus ativistas vieram do povo, integram as mesmas famílias que sofrem os efeitos de seus movimentos nas cidades. É como se todos se sentissem co-participantes dos custos e benefícios das conquistas. Quem não lembra ou sabe do intenso apoio popular às greves promovidas por Lula no fim dos anos 1970 e começo dos 1980?
Mas isso foi uma conquista histórica, desde a luta dos anos 70. Não é certo que isso se eternize. Coloca, para os movimentos sociais, formas de organização e luta adaptáveis, para manter e aprimorar o apoio popular. Quer dizer, que não se percam em objetivos exclusivistas, inapropriados, ou formas de luta intempestivas que penalizam o cotidiano do povo.
De modo que há, também, um longo aprendizado pela frente. O povo brasileiro conquistou muitos novos direitos. Articular a luta e formulá-la em termos de instar o governo – ao menos os governos mais democráticos e populares – é uma ciência e arte, combinando a pressão com a boa condução política, de modo a impulsionar as conquistas e minimizar o sofrimento do restante do povo que arca com os efeitos do movimento.
Fazer movimentos sem considerar os efeitos políticos desejáveis ou indesejáveis não foi a lição dos anos 70 até aqui. A realização da Copa cataliza muitos movimentos reivindicativos, elevando a pressão sobre governos às voltas com a imagem do país e com o sucesso do evento, o que era de se esperar. Mas o corporativismo cego, que não mede consequências políticas, leva água a moinhos alheios aos interesses do povo.
Hoje, há greves relâmpagos contra os próprios sindicatos. Há forças obscuras que buscam se aproveitar reacionariamente dos movimentos populares (e outras não tão obscuras como a mídia nativa, capaz de se regozijar cinicamente dos efeitos de certos movimentos). Por outro lado, cabe considerar o sofrimento que causa a paralisia de transportes públicos, ou da educação pública, ou mesmo a vida das cidades, que infernizam o cotidiano de milhões e milhões de trabalhadores e de famílias. Sacar indefinidamente da conta dos interesses da população pode acabar por secar a fonte de apoio.
A questão central é essa: politizar os movimentos, fazê-los com que unam a maioria do povo, postos a serviço de um projeto que, certamente, aumente os direitos do povo. Politizar é formular projetos políticos, e não necessariamente de partidos políticos. É ligar os movimentos a anseios mais amplos da população, sem corporativismos, que os estreitam. Não transformá-los em correias de transmissão de interesses partidistas, mesmo que com a aparência de movimentos sociais.
De todo modo, é uma conquista o direito de manifestação e a autonomia dos movimentos sociais. E a democracia brasileira é essa: as coisas funcionam sob pressão para arrancar conquistas dos governos. Aliás, até o Congresso só funciona sob pressão. É uma democracia “a quente”. E é esse o nosso padrão, o nosso jeito. Melhor assim, num país plural, democrático, onde conquistas de direitos foram recalcadas secularmente.
Mas insista-se: há modos de os movimentos sociais ligarem suas lutas umbelicalmente a um projeto mais amplo. Mesmo as lutas salariais. Há formas de luta que não penalizam a maioria do povo e, ao contrário, promovam maior adesão às lutas. Há modos de condução que fortaleçam a organização da luta social, não que a fragmente. E há “movimentos” que se encapuçam sob a denominação de movimentos sociais. Os custos-benefícios das lutas são sempre políticos, queira-se ou não, tenham consciência disso ou não, os ativistas sociais. Afinal, leva-se água ao moinho alheio mesmo sem o saber.
Nos anos 70 tinha-se um propósito claro: combater a ditadura e alcançar a democracia, o que potenciou a luta social e vice-versa. Hoje isso pede um projeto de nação mais civilizada. As bandeiras das reformas democráticas são o que podem unir o povo e os movimentos, a começar da reforma política que aumente e melhore a representação política popular – com o fim do financiamento privado das corporações econômicas – até a ingente reforma urbana para as grandes aglomerações populares das nossas cidades.
Comentários