Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

Amigos de Lênin, unamo-nos!

lenin-arte (1)Assino com alegria a fundação da Sociedade Amigos de Lênin.  A iniciativa foi instalada na sexta feira, 6 de junho passado, por um conjunto de quadros políticos e teóricos e se destina a realçar a atualidade de Lênin, seu pensamento e ação para a luta contemporânea.

O Manifesto está ainda em elaboração, a partir da base, abaixo, que destaca alguns dos grandes méritos desse gigante do pensamento revolucionário.

Minha vivência como militante comunista, iniciada em 1972 como estudante universitário, teve como definidor o estudo da obra de Lênin, junto com a de Marx-Engels. Estudei-a em vários e amplos aspectos, mas agora o trabalho da Sociedade dos Amigos de Lênin permitirá perscrutá-lo mais a fundo e sistematicamente. Grande Iniciativa, diria Vladimir.

Manifesto da Sociedade dos Amigos de Lênin (SAL)

 

 

Este manifesto argumenta acerca da necessidade de criação de uma Sociedade dos Amigos de Lênin, no Brasil. Baseando-se em debates da Fundação Maurício Grabois, a ideia inspira-se na famosa sugestão de Lênin preconizando a formação de um “Clube de amigos de Hegel”. Essencialmente, nossa proposta pretende retomar as contribuições do grande teórico e político russo, em dimensões em dimensões prospectivas e contemporâneas.

 

 

1. A inteligência revolucionária da nossa época

 

 

Em janeiro deste ano completaram-se 90 anos da morte de Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido por Lênin. Diferentemente de anos passados, desta vez registraram-se iniciativas celebrando o legado desse gigante da luta revolucionária pelo socialismo. Entretanto, mesmo em crise sistêmicada sociedade burguesa, persiste uma visão negativa do legado teórico e político de Lênin e das épicas jornadas de Outubro 1917, das quais foi o grande inspirador e dirigente.

Sua firme oposição aos principais líderes da socialdemocracia europeia,que haviam capitulado perante a deflagração, em agosto de 1914, da Grande Guerra Mundial entre as potências imperialistas, tornou-o a maior referência, entre os marxistas revolucionários, no combate pela renovação e revigoramento do marxismo e pela construção de uma estratégia revolucionária adequada aos novos tempos caracterizados pela transformação imperialista do capitalismo. Assumiram a fundo a defesa da paz entre os povos, da independência nacional, contra a guerra e o colonialismo.

Quando a Revolução soviética triunfou, a maior parte da humanidade ainda vivia sob o domínio de potências coloniais, notadamente da Inglaterra, a França, a Alemanha e o Japão e Holanda etc. Foi ao influxo das ideais de Lênin que os marxistas passaram a defender o direito das nações à autodeterminação e conclamaram a luta os povos dos países dependentes e coloniais contra a opressão nacional.

Lênin era um radical inimigo do dogmatismo e das ideias estereotipadas no interior do marxismo: “A história em geral e a das revoluções em particular é sempre mais rica de conteúdo, mais variada de formas e de aspectos, mais viva e mais ‘astuta’, do que imaginam os melhores partidos, as vanguardas mais conscientes das classes mais avançadas”.

Absorvendo ideias pioneiras de Engels, ele travou intenso combate à petrificação doutrinária da teoria marxista, que devia ser um “guia para ação”. Para ele, Marx e Engels apenas haviam colocado as pedras iniciais da construção naquele poderoso sistema teórico, cabendo às sucessivas gerações dar prosseguimento à grandiosa obra. Se o marxismo não conseguisse dar conta dos novos fenômenos que surgiam no movimento histórico, poderia degradar-se e transformar-se num dogma incapaz de intervir no curso dos acontecimentos.

Lênin sugeriu ainda que as revoluções tenderiam a eclodir nos elos mais fracos da cadeia imperialista, não necessariamente onde o capitalismo fosse mais avançado. Constatou que a lei do desenvolvimento desigual criava possibilidades de rupturas revolucionárias, sustentando firmemente que o início da construção do socialismo poderia ocorrer num único país ou num pequeno número de países localizados na periferia do sistema.

 

2. A força atual da teoria leninista

 

Quase um século depois de sua publicação, O imperialismo, etapa superior do capitalismo continua sendo um instrumento teórico indispensável à compreensão da lógica concreta do capital. Segundo Lênin, o capitalismo central, mais avançado, se reproduz em permanente tensão entre a “decomposição” e o “desenvolvimento”. “O imperialismo é a época do capital financeiro e dos monopólios, que trazem consigo, em toda a parte, a tendência para a dominação, e não para a liberdade. A reação em toda a linha, seja qual for o regime político. (…) Intensifica-se também, particularmente, a opressão nacional e a tendência para as anexações, isto é, para a violação da independência nacional”. A dialética materialista de Marx aponta os limites objetivos do modo capitalista de produção e suas rupturas recorrentes, mas abstém-se de especular sobre seu colapso final.

A lei do desenvolvimento desigual do capitalismo – para Lênin uma lei absoluta – é fundamental para entender as determinações que impulsionam a dinâmica do sistema atual de relações internacionais capitalistas.

A crise sistêmica do capitalismo que estamos presenciando inscreve-se num ciclo de agudas crises provocadas pelo predomínio do capital financeiro da época do imperialismo, que amplia o desenvolvimento desigual entre os países centrais e periféricos e estimula os conflitos e as guerras neocoloniais.

A elaboração por Lênin de uma teoria da transição ao socialismo na Rússia Soviética, baseada na análise do capitalismo de Estado e da construção da Nova Política Econômica (NEP) tem uma dramática atualidade. Para ele, a construção do socialismo em países periféricos deveria ser longa e conhecer várias etapas. Num primeiro momento, combinariam elementos socialistas e capitalistas; planejamento e mercado.

Outra importante ideia-força deixada por Lênin é que não existem modelos únicos de revolução ou de transição. Cada povo, a partir de suas condições históricas e consciência social, deverá construir os seus próprios caminhos. Nesse sentido, os partidos comunistas autenticamente revolucionários só poderiam consolidar sua influência junto ao inabalável trabalho de massas; intervindo nos acontecimentos políticos e não fugindo deles.

Questão universal e perene da luta de classes no capitalismo, o esquerdismo professava – e professa – rejeição a quaisquer compromissos com outras camadas sociais ou forças políticas não comunistas. Lênin, pelo contrário, advogava a necessidade de se estabelecer acordos e compromissos na luta política. A história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro – dissertou ele em 1920 – realizou-se cheia de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive burgueses. Mas, sublinhava: “há compromissos e compromissos”.

 

3. A fecundidade da construção de Lênin nas adversidades hodiernas

 

Do legado teórico marxista em Lênin sublinhamos principalmente: a) a lei do desenvolvimento desigual do capitalismo, compreendendo assimetrias e disputas entre o núcleo dos países no estágio do imperialismo, e destes com os países periféricos; b) da degeneração multiforme do capitalismo central, até as guerras; c) na evolução do declínio civilizatório deste capitalismo, às revoluções proletárias da nossa época; d) uma nova teoria da transição ao socialismo; e) os inusitados aportes culturais captados no nascedouro da nova sociedade.

De outra parte, sabemos que Lênin passou a ser “sacrificado”, muitas vezes em nome de um Marx “metodológico” ou quase inofensivo. Coincidentemente à derrota da experiência da construção socialista, configurada numa bipolaridade sistêmica mundial. Da omissão aos ataques a Lênin, setores da intelectualidade buscam eliminar o ineditismo histórico da Revolução de Outubro de 1917.

Em fidelidade à nossa história, elencamos entre as razões fundantes em nos dispormos a construir uma Sociedade dos Amigos de Lênin recordando igualmente o forte impacto obtido pelas ideias dele entre pensadores e revolucionários no Brasil. O que conclama reforçar em nossos dias a difusão de seu pensamento, de sua obra, de suas realizações políticas.

 

Leia também:

Sérgio Barroso: Lênin para a contemporaneidade

Especial: Atualidade do pensamento de Lênin

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

Um comentário em “Amigos de Lênin, unamo-nos!

  1. eduardo
    10 de junho de 2014

    Parabéns pela iniciativa. O partido precisa efetivamente de pensamentos alinhados com a doutrina comunista. Não nos tornamos comunista por estar em um partido que tem o nome de comunista e sim quando pensamos e agimos como tal. O estudo é parte deste caminho e esta sociedade acredito que é uma bela iniciativa, algo que falta, que vem da raiz, portanto só tem a contribuir.

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Publicado às 10 de junho de 2014 por em Comunista.org e marcado , , , .

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