O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Com gosto, ofereço ao leitor Conversa.com Olgamir Amância. Uma mulher com longa jornada de luta, que agora representará PCdoB como futura deputada distrital por Brasília. Uma história como a de muitas mulheres, mas marcada pela consciência revolucionária, fibra e grande capacidade de realização.
Olgamir, alguns dos leitores não a conhecem. Vamos começar pelo meio: como foi isso de você chegar ao PCdoB?
Cheguei ao PC do B por meio do meu irmão mais velho Josino Reinauth Ferreira, militante do movimento estudantil nos anos 70 na UFPB, Campina Grande. De volta à Brasília fundou o partido em Planaltina e manteve se na luta pela legalização do partido envolvendo toda a nossa família nos debates acerca do assunto.
Qual foi sua área de estudo?
Sou filha de um agricultor e de uma professora primária, que foi a minha alfabetizadora e da maioria dos meus irmãos. Com ela aprendi que a educação era a maior riqueza que poderíamos acumular, todo o resto poderia ser tomado. Estudei sempre em escolas publicas no DF. Fiz magistério no centro Educacional 01 de Planaltina (2° Grau). Posteriormente me licenciei professora de matemática. Atuei por 30 anos nessa área. Fiz Mestrado e Doutorado na UNiversidade de Brasília na área de Educação (Política Publica e Gestão da Educação). Hoje sou professora na Universidade de Brasília, atuando principalmente em cursos de formação de professoras(es).
Que tipo de militância teve antes e depois de sua entrada no PCdoB?
Militância estudantil. Representante de turma durante todo o ensino médio. Militância sindical seja como delegada sindical de base, dirigente do sindicato dos professores do DF( sinpro DF publico) e privado ( Sinproep), fui membro da comissão de negociação dos professores da rede pública e particular.
Fale de sí, como pessoa. Paixão ou razão, intelecto ou intuição? Ou de tudo um pouco? O que melhor a caracteriza, digamos assim, como pessoa?
Sou tímida , muito disciplinada, estudiosa. Mesmo tímida sempre atuei como liderança nos grupos dos quais participei. A minha timidez é sempre sobre a defesa pessoal. Sempre tive muito claro com o que não concordava: práticas autoritárias, desigualdade social e submissão do outro. Nesse sentido, desde sempre me tornei porta-voz da demanda de meus colegas de turma fosse em relação a demandas gerais, fossem demandas específicas ( colega injustiçado, desrespeitado por professores etc). Gosto de desafios , mas sofro muito com eles.
Você parece muito atraída pela representação política, gosta de povo. Estou certo? Isso lhe é muito característico?
Sim a política me atrai porque por meio dela podemos fazer a intervenção sobre o mundo para transformá lo. A possibilidade de transformar a sociedade tornando a mais democrática e justa me mobiliza permanentemente. A política fortalece o coletivo e eu gosto de ser sujeito na partilha, na troca com o outro.
A secretaria da mulher do DF, que vc chefiou, foi um sucesso. Fale um pouco do trabalho realizado e de sua satisfação maior nele.
A SEM DF foi o meu principal desafio. Por isso a composição da equipe se deu a partir de 3 critérios : competência técnica, competência política ( compromisso de identificar e construir respostas as demandas das mulheres do DF) e o comprometimento com o projeto em curso (GDF) e com a concepção emancipacionista na formulação e implementação das políticas.
Com uma equipe azeitada, ainda que muito pequena, e com clareza de qual era o nosso objetivo estratégico iniciamos o esforço de dar visibilidade à secretaria e de fazê-la respeitada pelo próprio governo e pela sociedade.
A aproximação com as mulheres independente de classe social, idade, local de moradia, etc reafirmou a necessidade de se ter políticas específicas em todas as áreas para as mulheres.
Nos mantivemos vigilantes para que a SEM não se tornasse apenas a secretaria de enfrentamento à violência contra a mulher. Procuramos atuar sobre o resultado e na prevenção. Buscamos construir um novo olhar das mulheres e da sociedade sobre o processo de dominação e opressão. Isso porque compreendemos que a violência contra a mulher na sociedade patriarcal se dá também em práticas que não estão configuradas na Lei Maria da Penha , como a diferença salarial. Nesse sentido, fortalecemos e ampliamos os equipamentos de combate a violência (CEAM, casa abrigo, NAFAVD), mas investimos na prevenção fortalecendo as mulheres, esclarecendo, assegurando o acesso de forma diferenciada a outras políticas governamentais como a saúde ( carreta da mulher, vacina contra o HPV), o trabalho (qualificação e inserção) , educação (desconstrução da cultura por meio de projetos como o GDF fazendo gênero na Escola e o jogo da. Mulher), a ampliação do conselho dos direitos da mulher (CDM) assegurando a presença do movimento feminista e criação de outros conselhos com vistas ao empoderamento das mulheres, etc.
Como mulher, como você vê esse enorme contingente beneficiado pela mobilidade social ascendente dos últimos dez anos, em geral com uma participação cada vez maior de mulheres?
Testemunhar a crescente inclusão social em nosso pais com a correspondente superação da miséria e da extrema pobreza reafirma a nossa convicção de que, nos marcos do capitalismo, podemos reduzir desigualdades. Iniciativa fundamental para enfrentarmos a lógica excludente do modelo em curso no Brasil. Ao acessar direitos, a sociedade vai se colocando em um novo patamar com mais exigências. “Direitos geram mais direitos”. Nesse sentido, considero que os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, ainda que não estruturantes, representam um passo à frente na construção da cidadania. Outro aspecto destacado nessa questão se refere ao reconhecimento da mulher como sujeito na gestão dos recursos, o reconhecimento do papel da mulher nesse processo garante a elas mais autonomia, isso é motivo de muita alegria.
Me sinto muito feliz com os resultados alcançados ainda que saiba que muito há a fazer, mas quando vejo nos diferentes programas que desenvolvemos nas cidades do DF a postura mais autónoma das mulheres, o reconhecimento de sua condição desigual na sociedade que vivemos, o encorajamento para enfrentar a violência sinto que estamos no caminho certo.
Reconhecidamente são inúmeros os avanços conquistados pelas mulheres na contemporaneidade. Entretanto, a mulher continua numa relação desigual tendo em vista que as tarefas domésticas, ainda são reconhecidas como tarefas das mulheres. Essa dupla e as vezes tripla jornada de trabalho, em geral, impedem que a mulher participe de espaços de formulação das políticas públicas. As condições objetivas de participação das mulheres com estruturas como creches, escola de tempo integral também são fundamentais para que ocorra a participação, pois participação ” não é ato de vontade”. Da mulher é exigido muito mais para que ela possa ocupar espaços historicamente reconhecidos como masculinos, isso talvez explique por que hj as mulheres acumulam mais horas de estudo que os homens.
E na tua experiência pessoal, como foi? Preconceitos de gênero pelo caminho?
Sim foram muitos os preconceitos inicia no próprio movimento sindical, intitulado espaço democrático, mas dirigido pelos homens e sob a lógica e ordenamento masculino. Participar da comissão de negociação espaço de elevado poder na estrutura sindical não era tarefa fácil. Intervenções nas grandes assembleias somente quando se tinha dificuldades na condução, aí sim, eram chamadas as mulheres consideradas melhor qualificadas para o convencimento da base.
No governo, tivemos que nos impor cotidianamente, para sermos respeitadas como Secretaria de Estado. O olhar dos colegas era de pouco caso com relação as nossas demandas ainda que fizessem cena, fazendo parecer que reconheciam a nossa importância. Exemplar dessa situação foi a criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico( composto por figuras reconhecidas da sociedade nas mais diferentes áreas,em geral , homens) a SEM foi excluída. Como pensar o desenvolvimento econômico e social sustentável sem a presença das mulheres? Somente após alguns meses conseguimos demonstrar a importância da SEM para qualificação do debate. Na verdade, precisamos fazer muito mais, provar o tempo todo que tínhamos o direito aquele espaço. Contraditoriamente, essa visão reduzida nos estimulou ao desafio de provarmos que podíamos.
Governo Dilma, sinceramente
Dilma Presidenta da República quebra o preconceito com a presença das mulheres nos espaços de poder, entretanto isso é apenas um indicativo, importante mas um indicativo.
Vc é candidata a deputada distrital, muito bom. Além do trabalho de mulheres, você tem trabalho político popular em Planaltina. Está otimista?
Estamos trabalhando com três áreas: educação, mulher e Planaltina. Estou bastante otimista o trabalho desenvolvido pela SEM está muito bem avaliado pela população . Há um reconhecimento geral da nossa capacidade de gestão com destaque para as iniciativas na área da saúde da mulher (carreta da Mulher, vacina contra o HPV) e no enfrentamento a violência com a ampliação e qualificação dos serviços e equipamentos. O desafio agora é colar essas políticas ao nome Olgamir.
Republicou isso em PCdoB DF.
Republicou isso em A Estrada Vai Além Do Que Se Vê.