Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

Amanhã sou Argentina

PeléMaradona
Voltava pelo Metrô após o jogo Holanda X Argentina. Multidão de hermanos felizes gozavam os brasileiros, o “Siete a uno” da véspera. A confraternização se instalou, na esportiva. Eu, no meio da algazarra geral, falava com um senhor e seu filho de 10 anos, porteños muito distintos. Eram Boca. Ao lado deles estava um que fez muchocho – era River Plate. Disse a eles que não compreendia como um porteño pode aceitar torcer para “River Plate” e não Rio de la Plata. Malvinas ou Falklands? Claro, eu estava apelando.

Mas no meio da gozação, disse ao menino: vocês são bicampeões e podem ganhar o tri. Imagine: vocês poderão ser pentacampeões, talvez, quando você tiver a idade de seu pai! A turma em torno sentiu o golpe.

Amanhã sou Argentina. Cultuam o futebol com paixão e têm história de garra como bicampeões. A Copa no Brasil se engrandece com a vitória de um país latino-americano, mantendo a tradição de, no Novo Mundo, não vencerem os europeus. Se fosse inevitável, que fosse a Holanda.

A paixão pelo futebol aumenta no mundo todo. A torcida da Holanda dá um show nisso. Como não registrar também os norte-americanos? Mas nada disso se compara com o Brasil. Porque aqui, mais que paixão, o futebol foi incorporado como uma das maiores expressões da identidade nacional. Mais gerações precisam se passar para instituírem o futebol na alma do povo desde cedo. Profissionalismo vai ajudar, claro, mas não basta.

Recolhe-se nele a participação dos negros que venceram no esporte, a possibilidade das camadas mais pobres se afirmarem em sua identidade por meio do futebol. As várzeas, as peladas de rua permanentes, em todo o território nacional, forjaram ao longo de três ou quatro gerações o DNA do brasileiro como futebolistas natos. Desde os anos 50, sediando sua primeira Copa, e vencendo em 1958 e 1962 – o único país que venceu uma Copa na Europa! – coincidiram com a melhor fase da afirmação nacional: foi o tempo da riquíssima expressão musical, o samba e a bossa nova, do cinema novo, do teatro popular, o carnaval encantando o mundo…

Esse traço da identidade nacional é perene, independente do insucesso deste ano. Acredito que, hoje, os brasileiros amadureceram, estão menos dionisíacos, talvez, quanto ao resultado de uma Copa determinar o estado de espírito nacional. Até por isso, devemos fazer do episódio uma alavanca para reestruturar o futebol nacional em sua institucionalidade, voltar a pô-lo na vivência cotidiana das crianças e jovens, no próprios sistema educacional, e profissionalizá-lo para acompanhar o espírito do tempo.

Impossível, a curto prazo, que essa característica brasileira se forje em outros espaços nacionais. Repito: não é apenas paixão. Quem mais se aproxima disso são os argentinos. Pelé é maior que Maradona, decerto, mas Maradona e Pelé são expressões, ambas, a serem cultivados por todos os amantes do futebol e, mais ainda, pelos latino-americanos.

Amanhã sou Argentina. Que vençam los hermanos. Eles o merecem.

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

2 comentários em “Amanhã sou Argentina

  1. Pedro
    12 de julho de 2014

    Da mesma forma que não deixo de ser brasileiro, por não idolatrar a seleção brasileira, também não vou levar em conta a questão geográfica, ou até mesmo a história. Lasque-se a Argentina. Alemanha Tri Campeã.

  2. Armando De Magdalena
    13 de julho de 2014

    La verdad es que a mi me importa muy poco si Maradona es más grande que Pelé. Creo que el problema es elevar un simple deporte al grado de filosofía existencial, es decir que la filosofía de un deporte se convierta en el modo de ser de una sociedad (como creo pasa en argentina y tal vez pase también en Brasil). Sinceramente no puedo dejar de ver la magnificación de un triunfo o un fracaso deportivo como un síntoma inequívoco de subdesarrollo o de debilidad cultural… yo no creo que Francia haya visto afectada su autoestima por haber sido eliminada de un mundial. No creo que Italia haya visto afectada su autoestima por haber sido eliminada de un mundial… y no lo creo por que sé que tienen miles de años de historia y por que sé que en esos miles de años de historia han conmovido al mundo ya sea para bien o para mal… que es la copa del mundo para los autores de la Enciclopedia?… para Rosseau o Montesquieu, para Leonardo o Miguel Angel?… aún hoy día seguimos haciendo as rúas como las hacían los romanos… (no se si me explico?)… será que yo soy una caso extraordinario de inteligencia para haber notado, sin necesidad de que Brasil haya ganado nunca una copa del mundo, de que Brasil es un gran país. Un país que como Argentina parece bendito de la mano de Dios, ambos llenos de belleza y riqueza, de matices y vitalidad. Empecemos a ver al futbol como lo que es: un hermoso y maravilloso deporte, pero un deporte y nada más. Brasil no es sólo Pelé, también es Vinicius y Jorge Amado, o sus médicos y científicos… dentro de unas horas Argentina jugará la final de futbol frente a Alemania pero si gana o si pierde no seremos mejores o peores futbolistas (mucho menos, personas) yo soy un enamorado de mi país y soy el primero que me voy a oponer a que seamos grandes por jugar al futbol… salud, irmao paulista, yo también soy brasilero y hasta a veces me doy el lujo de ser vietnamita o congoleño, irlandés o sólo poeta

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Publicado às 12 de julho de 2014 por em Opinião e marcado , , , , , .

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