O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Retomei contato com Júlia Lemos, estimada amiga, mais recentemente. Na verdade, a conheci criança, filha de uma incrível família comunista hoje em Goiás. A irmã é vereadora na capital do estado; a mãe, deputada; outra irmã é Maíra, notável cantora. Todas belas… e feras no que se propuseram a fazer.
Júlia está completando este mês a defesa de doutorado. Foi incrível o desafio a que ela se propôs: retomar o jovem Marx em ligação com o Marx maduro, mostrando a linha de continuidade entre o seu republicanismo democrático e seu revolucionarismo classista, ou seja, comunista, continuidade não isenta de tensões e giros.
Nessa linha de pesquisa derraparam muitas esperanças da esquerda marxista ao longo dos últimos 90 anos (desde a MEGA e a publicação da obra do “jovem Marx”). Lembro-me do quanto isso me atormentou ao longo da década de 70 e 80… sobretudo para me haver com Althusser. De fato, é tema espinhoso e de notória importância para a luta de ideias atual.
Parabenizo Júlia. Pelo que li da introdução e conclusões, ela faz uma abordagem profunda, concisa quanto ao foco e corajosa porque frontal. Parece que ela retomou a diretiva de Lukács, que reclamava para o tema uma vigorosa monografia exaustiva, após ele próprio ter dado o passo inicial e tendo se proposto a um silêncio obsequioso perante a crítica de que foi vítima – no caso a palavra é real e a mais indicada.
De fato, minha formação é a de quem considera o positivismo um cancro no marxismo “oficial”. Malgrado suas realizações, no embate de ideias e político com o liberalismo – e com a doutrina social da Igreja, a terceira grande corrente do tempo – deixou a desejar devido a essa limitação, numa incompreensão da relação entre ciência e filosofia, uma visão reducionista do materialismo dialético, o decaimento no mecanicismo determinista. Não por acaso, uma categoria central nas reflexões de Júlia seja aufhebung, categoria profundamente dialética que indica subsunções, ou seja, incorporação e subordinação de categorias em múltiplas determinações, alcançando níveis superiores de totalidade.
Disse a Júlia que Gramsci, entre outros, me ajudou a compreender dialeticamente tais limitações pela esfera da teoria política marxista. Sua obra teria muito a dizer sobre o tema do republicanismo em confronto com o liberalismo numa perspectiva revolucionária e classista. Mas sei quanto é difícil abrir leques numa tese dessa proporção.
Enfrentar tal questão é parte do embate pela superação da crise do marxismo, ou seja, demonstrar a coerência interna da evolução do pensamento de Marx. Porque só assim se poderá travar a luta hegemônica com o liberalismo. Nisso, a tese de Júlia é profundamente comprometida. É nisso que ela se concentra.
Vocês logo mais poderão conhecer a tese. Um resumo livre meu vai pelo caminho de postar este “retrato” em preto e branco da Introdução do trabalho e indicar que suas conclusões navegam por mares promissores, com linhas de desenvolvimento do tema, mas inferem uma imagem de Marx e da obra marxiana diferente da que predominou nos discursos políticos jornalísticos que exaltam a democracia liberal após a derrocada da URSS e do campo socialista.
Diz ela:
“o projeto de emancipação humana em Marx fundou-se numa oposição à razão pública como razão pública meramente formal, numa oposição ao Estado como razão pública apartada, alienada, estranhada e sobreposta à vontade do povo. Apenas subsumindo o domínio da propriedade privada, subsumindo o poder social da posse material e subsumindo o poder do dinheiro sobre a política, é que o pedido da democracia – constituir instituições públicas que representem legitimamente e verdadeiramente o interesse do povo – poderia ser realizado.
É também em termos de uma dialética que é possível compreender o que Marx quer dizer com “dissolver o Estado político”. Antes de ser a negação da autodeterminação do povo pelo povo, tal expressão é usada como negação da separação de tais instituições públicas das determinações do povo. Não se trata, assim, da negação da participação do povo na determinação da forma política e nem da existência institucional da política, mas justamente da dissolução da categoria política fechada em si mesma, dado que passou a compreender que tal fechamento é antes uma alienação dos homens em relação à política que uma realidade na qual os homens são sujeitos efetivos da política. O comunismo, portanto, não é o destino natural dos homens, mas é a única forma de liberdade dos homens a partir do capitalismo. O comunismo é indicado na Ideologia Alemã como um humanismo a partir do inumanismo dado. Não há uma linha de desenvolvimento de uma essência humana que naturalmente se desenvolve até culminar no comunismo. Nesse sentido, a história desenvolvida na IA é simultaneamente aberta e fechada: uma determinação é sempre e apenas a reversão de uma outra determinação, mas não existe um a priori sustentando a sequência de determinações. E, a partir de uma determinada realidade, ainda que várias outras realidades sejam possíveis, apenas uma reversão específica engendra uma realidade de maior liberdade. Em outras palavras:
[…] o comunismo não é para nós um estado (Zustand) que deve ser implantado, um ideal ao qual a realidade [haverá] de se sujeitar. Nós chamamos de comunismo o movimento real que suspende e supera (aufhebung) o estado de coisas atual. As condições deste movimento se depreendem da premissa atualmente vigente. (MARX; ENGELS, 2007b, p. 59, grifo do autor).”
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Gente jovem com esse ímpeto só pode alegrar aqueles que lutam pelo conhecimento crítico como arma da luta de ideias pela transformação do mundo. Pedi a ela esta pequena apresentação-entrevista, contando sua trajetória e motivação sobre o tema. Ela seguirá na próxima postagem deste Blog.
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