O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

“Com certeza, ela é a primeira líder mundial que presta atenção, que ouve as demandas de pessoas nas ruas. Ela mostrou que é uma verdadeira democrata, mas ela está sendo esfaqueada pelas costas por políticos tradicionais” (Manuel Castells)
Estamos em mais uma fase de bipolaridade no debate sobre os problemas brasileiros. No sentido clínico, volta o velho bordão sobre os grandes potenciais da nação e promoção de ansiedade depressiva quanto ao presente. No sentido político, é a bipolarização, malgrado a tentativa de terceira via, sobre as alternativas econômicas, sociais e de afirmação nacional perante o mundo.
Grandes consensos se formam muito lentamente, às vezes levam décadas. No caso brasileiro, talvez porque as mudanças têm exigido o concurso de forças heterogêneas, negociadas em amplas coalizões. O resultado é que tem faltado uma estratégia contínua que perfaça uma política de Estado e não apenas de governos.
Isso já vem, pelo menos, desde a era moderna aberta com a vitória de Vargas em 1930. Durante todo esse período, para além de intervenções e ditaduras militares, a evolução política foi marcada por exasperações antípodas, e a evolução econômica foi a da modernidade marcada por formidáveis desigualdades sociais e regionais. A tônica sempre tem sido a de um projeto de afirmação nacional, democrático, progressista, que incorpore o povo aos frutos do desenvolvimento versus seu antípoda, um caminho de modernidade tardia, dependente, subsidiário de grandes potências, numa sociedade que se considere civilizada para metade da população.
Nos dias atuais, com a democracia imperfeita que se logrou alcançar, o debate volta à tona. Ir para o norte ou ir para o Sul, dependendo dos resultados das eleições presidenciais. O país conquistou uma agenda de governo que alcançou três vitórias presidenciais consecutivas, marchando para buscar a quarta em outubro. A gritaria se avoluma, o pessimismo se difunde, as eleições são cada vez mais regadas a dinheiro empresarial, a mídia plutocrática finge encarnar uma suposta voz do povo, como se fosse a dona da razão.
É no mínimo ingênuo, em alguns dos que intervêm no debate eleitoral, considerar que Dilma pode ser derrotada porque não tem “uma agenda para o país”. A agenda existe, está em curso desde 2002, sofreu importantes flexões pressionada pela crise mundial e tem em Dilma, precisamente, uma condotière apaixonada e determinada. O fio condutor é o desenvolvimento com inclusão social, o fim da miséria e mais progresso social cuja realização era demandada há mais de um século, para um país predominantemente de “classe média”, capaz de fazer ouvir sua voz respeitada no concerto internacional, arrimo para a união sul-americana.
No programa de TV, tamanha a desfaçatez com que se pregou pela mídia o apocalipse econômico e o mau humor no imaginário popular, as pedradas recebidas há quase dois anos por Dilma podem funcionar como um bumerangue. Isso porque ela vai se mostrar capaz de aprofundar mudanças, retemperar a agenda, propondo novo alcance de realizações propiciadas pelo que se acumulou nesta última década. Um choque de produtividade da economia – investimentos, parcerias, infraestrutura, desburocratização – mantendo o essencial que é a renda do trabalho, emprego e direitos, para estimular o mercado interno que é um patrimônio incomensurável do Brasil. A reforma federalista, capaz de alinhar a matriz de responsabilidades e de investimentos em saúde, segurança pública e mobilidade urbana, portanto, de fortalecer os direitos do cidadão que implicam deveres do Estado.
O que se pode dizer é que essa agenda não contempla alguns interesses da sociedade. Claro, há uma disputa política, normal e necessária. A exacerbação da mídia plutocrática, ecoando setores econômicos dominantes, é sobre o descontrole fiscal e inflacionário, a suposta estagnação, o comandismo econômico etc. São as toadas presentes mais uma vez, insistindo na dimensão depressiva da bipolaridade clínica.
As queixas existentes têm base real e inferem a maior crise mundial dos últimos 80 anos; igualmente, as carências seculares de injustiças e desigualdades, a fragilização do Estado promovida nos anos liberais. Mas são amplificadas porque, crescentemente, os interesses econômicos – mesmo de agentes produtivos e não apenas especulativos – vão escorregando crescentemente para o descrédito de investir no Brasil. Imaginando uma retomada das economia centrais, EUA e Europa – diga-se, permeadas de estagnação e desemprego, com tremendas crises fiscais – pensam em re-atrelar-se como vagão da suposta locomotiva das “cadeias globais de produção” que, como se sabe, são capitaneadas pelas finanças e mormente pelos EUA. Abrem mão, em diferentes medidas, dos interesses nacionais, como se se pudesse resistir ao vagalhão liberal sem a força de Estados nacionais soberanos, fortes e aparelhados para defender seu próprio interesse. Talvez considerem isso conversa démodé. Talvez considerem a crise da industrialização como mais uma Era no fim de linha – a era do ouro, do café, da borracha. Com certeza consideram que Dilma não é a mais palatável, apesar de que durante os governos Lula e dela essa gente foi amplamente beneficiada pela política econômica adotada.
A agenda Dilma fez o que era essencial para enfrentar a crise mundial nas condições do Brasil: estimulou a economia, o investimento público para alavancar também o privado, manteve renda e emprego, combateu a miséria. Chegou a baixar juros para níveis internacionais e monitorou o quanto pode o câmbio, para segurar a indústria. Criou as condições para poderoso projeto educacional e também as bases de sustentação para novo patamar da saúde pública. Aplica um dos maiores planos históricos de investimento na infraestrutura do país, depauperada. Pôs o país em trilhos bem definidos. Até Franklyn Delano Roosevelt teria feito algo parecido.
Pois então a agenda em curso no país se contrapõe, enquanto projeto, aos dois antagonistas – Aécio e Marina, que, por sua vez, mostram notável convergência no tema econômico. A de Aécio é mais estrutural em sua acepção e sustentação. A questão é que tal agenda contraposta tem um nó estratégico de difícil solução. Ela terá que escamotear que qualquer ajuste por eles pregado – tipo “o Estado brasileiro não cabe no PIB” – sangra interesses de determinados setores sociais e beneficia outros. Vender à sociedade o sacrifício presente das conquistas para “novo ciclo de acumulação” futuro, por caminho oposto ao atual, vai ser bem indigesto. Sempre se pode tergiversar, mas numa campanha politizada e não apenas emocionalizada, isso será difícil de realizar, mesmo pelo caminho sonhático. Terão que exacerbar o mal-estar sem poder apontar, frontalmente, soluções de alcance imediato e, num período muito curto, forjar outro consenso de maioria social.
Enquanto isso, a agenda de Dilma vai se renovar, a partir do que realizou, e porque tem um norte que vai ao encontro da vida real de grandes massas da população e seu nível de social atual. Há múltiplos fatores para considerar que sua agenda, acrescida de melhoria da qualidade da representação e governança política, mais serviços públicos de qualidade e alcance universal, forjou consenso que está longe de ter se esgotado. É questão de retemperá-lo, despertar novo apetite pelo futuro. E vale o combate político destes próximos 45 dias.
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