O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Aécio Neves tem metade da razão, ou menos, quando aponta falhas da estratégia de Marina: “ela vai na direção do Lula ou de FHC?”, e que “o país não é para amadores”. Certamente, Marina tem uma concepção política de ONG em sua pregação e um projeto nacional – até um governo – não pode ser conduzido assim. Mas ela já deixou claro: quer o caminho de FHC, não por convicção, mas por cedência de garantias aos poderosos. Quer se cacifar a ser o plano B das forças econômicas dominantes contra Dilma sabendo que suas bases políticas são frágeis.
Aécio, entretanto, tem até menos da metade da razão, porque nunca se viu um candidato que transmite pelo semblante e no olhar toda a insegurança que lhe vai na alma. Difícil para ele retomar o plano A para derrotar Dilma.
Que a fiança tentada por Marina será essa está claro. A FSP informou que, para obter o beneplácito do senhor mercado, a equipe dela (Walter Feldman, Bazileu Margarido e um ex-presidente do CITI) reuniu-se anteontem com 50 investidores nacionais e depois 30 estrangeiros, a convite do ItaúBBA, cuja herdeira é Neca Setúbal. Garantias dadas em nome de Marina: autonomia ao Banco Central por meio de lei, reforma tributária para os impostos, administrativa para redução dos ministérios e reforma política para a governabilidade. Uma equipe de governo com o melhor do PT, PSDB, PMDB, PDT e outros.
Ouviu em troca que o presidente do BC precisa ter “sólida formação de mercado”. Os mensageiros de marina se comprometem abertamente com o arrocho do tripé econômico como garantia de futuro e de governabilidade, um reducionismo economicista de fazer corar os deuses.
Depois a equipe se reuniu com agentes do agronegócio. “Não existe uma posição consolidada do agronegócio em relação a Marina”, afirmam, o que é um contrasenso mensurável concretamente. “O que existe é insegurança”. Para redimi-la Marina se compromete com o Código Florestal e não pretende criar novas leis. Nega tudo que fez para derrotar a relatoria do Código de Aldo Rebelo no Congresso. Bem amoldável, Marina.
Algo substancial dos índices de pesquisas alcançados por Marina podem estar sedimentados, com o recall de 2010, cavalgando bem a comoção da morte de Eduardo, algo de purismo na imagem e identidade com camadas sociais que estão insatisfeitas, sobretudo inseguras com a manutenção do atual ascenso social verificado no decênio. Jânio de Freitas lembra que ela está, neste momento, com os mesmo índices que detinha nos primeiros meses do ano. Cesar Maia lembra que nem tudo está sedimentado, muito pode decantar, e isso depende da campanha. Clovis Rossi lembra a contradição das pesquisas: Dilma vem elevando seu patamar de aceitação do governo.
A questão é que os tais índices demonstram o quanto dos meios de comunicação monopolizados do país foram longe em sua pregação. Desmoralizaram a política, traçaram um roteiro de destruição da imagem de Dilma, deixaram claro que não podem conviver com uma quarta vitória popular. Valeu absolutamente tudo, como no tempo de Getúlio Vargas. Agora eles e seu círculo social financista têm o dilema: reentronizar o plano A, Aécio, ou aceitar um plano B com Marina para intentar seus propósitos de fundo. Haverá contradições aí.
Se algo vale acima de tudo, essa gente não rasga dinheiro. Em última instância, os negócios comandam suas ações, e são negócios estratégicos para seu poder. De modo que, representados antes de tudo pelo PSDB, precisam domesticar Marina. Fazem isso com crueldade e sagacidade costumeira. Se for para mostrar as inconsequências de pôr um país com a complexidade do Brasil nas mãos de Marina, vão ter que desconstrui-la em suas incoerências. A maior de todas é a de invocar “pessoas de bem” como FHC e Lula, de todos os partidos, para a governabilidade. Bastaria uma palavra deles para abrir o rombo em tal pregação.
A sociedade está polarizada politicamente entre PT e PSDB porque se trata de dois projetos antagônicos para o país não havendo lugar para uma terceira via (comentei isso em http://waltersorrentino.com.br/2014/08/26/nao-ha-terceira-via/). Marina tem sua fiança em bases inconsistentes politicamente. Ela terá nós estratégicos fundamentais na campanha, o maior de todos sendo a tal “nova política”, difícil sobrevivente em meio a tantos estratagemas, cedências e amoldamentos.
O pior que pode acontecer para o presidencialismo de coalizão vigente, que ela tanto critica, seria deixá-lo às mãos de uma presidente sem sustentação política própria, candidata do PSB que não é do PSB, detentora de uma marca de intolerância sectária na política. Mesmo que com convicções firmadas, tenderia a uma negociação exaustiva em cada tópico, tão amoldável como se pode constatar, mas paralisante e inconsequente. O que é ruim no sistema ficará pior.
Há uma campanha pela frente. A capacidade política em comunicar isso e dar esperança ao futuro tem muito a fazer, na TV e nos debates. São projetos em discussão. Mas muito precisa ser feito no plano de rua, boca a boca, corpo a corpo, para alcançar o imaginário de uma população que anseia segurança com as conquistas alcançadas e progredir mais, sobretudo da “porta para fora de casa”. Está aí mais uma vantagem das atuais forças que ocupam a presidência, que construíram uma base social e política estruturada ao longo de muitas décadas de luta e pedagogia política. Dilma, enquanto projeto, forças políticas e capacidade de agregar militância eleitoral, mantém a vantagem.
Quando falo da intolerância sectária de Marina, me refiro ao tipo de pessoas que se querem pôr acima do bem e do mal, juízas únicas de si próprias. “A diferença é que eu sou coerente, aplico a mim o que aplico aos outros”. Ora, em princípio se põe acima dos demais. Quando se a atinge, ela desloca para outros alvos o desvio. Não existe isso, já era tempo de ela compreender, a partir inclusive de sua própria trajetória, eivada também de incoerências e desatinos.