O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Nos últimos dez dias, Marina teve que suportar as inconsistências de sua pregação. Ungida candidata, seu programa é contraditório, porquanto costura interesses diversos, de diversos setores da sociedade, às vezes antagônicos. Os mais importantes fatos nesse sentido são o pré-sal e o BC independente, sem falar nas uniões homoafetivas. Esse dizer-desdizer infere que lhe faltava um projeto coeso de nação e de rumo para sua campanha, que tem nós estratégicos de difícil solução numa campanha realmente politizada.
O mais grave é a autonomia do Banco Central por lei. Mistificações à parte, desvela-se aí o perigo maior, que será o de “sanar” as contradições apontadas pelo caminho da cedência. Uma coisa é arbitrar um pacto dentro de determinada realidade política em favor de um projeto que tem norte – Lula o fez com a Carta aos Brasileiros e foi bem sucedido. Outra é o caminho de cedência não para neutralizar antagonismos com o sistema financeiro, mas de conferir-lhe o caráter de ser o apoio efetivo para governar. Ela o fez com o fervor dos convertidos. Quem tinha a dúvida se faltavam a ela concepções seguras, fica agora com a certeza de que, pior que isso, está disposta a traficar com os interesses da nação.
Tais contradições foram enfrentadas por ela com o refrão de que é preciso superar a polarização entre PT e PSDB, governar com os melhores de cada lado. Um triplo perigo: os “melhores” sem os partidos, caminho aventureiro para uma nação como o Brasil; também porque tais “melhores” tem melhores candidatos próprios e não pretendem sustentar a pregação marineira.
Marina já escolheu seu lado, como se viu, mas não pode dizê-lo com todas as letras. O pior é desconsiderar, tergiversar e escamotear que há dois rumos básicos em confronto (há tempos) no Brasil. A resultante é um mar de contradições que a política registra como transformismo.
No início da disputa presidencial, o cientista político Marco Aurélio Nogueira disse que uma campanha politizada poderia assumir um duplo caráter ao promover uma polarização: escolher se se privilegia o público, de interesse coletivo, ou os correligionários; e, em segunda chave, acentuar o que diferencia ou o que aproxima as posições dos candidatos. Para ele, esta última forma produziria atitude de relaxamento e cooperação humilde, atenuando as diferenças, não promovendo arrogância e exclusividade. Provavelmente, ele se referia a Marina nas chaves positivas citadas.
Mas é difícil que ela possa seguir cavalgando imaginários, se impossibilitada de levar a cabo uma autêntica politização da campanha. Ainda mais porque, crescentemente, desvela-se que sua “humildade” é máscara para a intolerância dos que se julgam os melhores e únicos juízes de si próprios.
Por essa razão, quem tem um projeto político construído em 30 anos de lutas sociais e progressistas, tem base social ativa e organizada capaz de mostrar à sociedade o que está em jogo. Quer dizer, a politização precisa alcançar aqueles segmentos da sociedade que estão estressados com a política e temerosos quanto à estabilidade de sua situação social.
Por outra razão, mesmo a oposição liberal teria por que resistir ao canto da sereia de Marina, como o vem fazendo. Pedir-lhe mais que isso, num segundo turno, é temerário. Mas há todo um segmento empresarial produtivo que fará contas cuidadosamente entre o seguro, com Dilma, e a aventura, se ainda vale a verdade “eterna” de que pensam a partir de seus interesses econômicos, que são os da 6ª economia mundial.
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