Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

Ciclovias: uma outra cidade é possível

O amigo Luiz Henrique Dias, dramaturgo e literato, sempre presente neste blog, fez esta matéria bem simbólica do tempo que se vive em Sampa, quando os problemas da cidade (e não apenas das pessoas) passa a habitar o debate público. É como dizia Haddad: “é preciso melhorar a vida da porta para fora de casa, também”. Gostei.

ciclovias

Foto: Fabio Arantes/SECOM

 

Ciclovias: uma outra cidade é possível

 

* Luiz Henrique Dias 

Certo dia, não faz muito tempo, desembarquei em Congonhas por volta das 11h da manhã e entrei em um táxi. Depois do tradicional “bom dia” e de falar sobre meu destino, precisei ouvir o taxistas xingar o Prefeito de São Paulo por longos minutos e de muitos palavrões.

O motivo? As ciclovias.

Como se fizesse coro com a professora da USP – que acusou Haddad de fazer faixas vermelhas como forma de divulgar a cor de seu partido (?) – o motorista do táxi reclamou, bravejou, rosnou por vezes, e se disse inconformado com a audácia de se “tirar vagas de estacionamento para colocar essas ciclovias que ninguém usa” e, assim, “prejudicar o trânsito e a vida das pessoas.” que circulam por São Paulo.

Tentei argumentar poucas vezes, mas achei justo ouvir sua opinião e, agora, pode refletir com você, amigo leitor ou amiga leitora, sobre o tema.

O Brasil, tal como outros países latino-americanos, optou pelo carro. Construímos nossas cidades dentro de uma lógica nefasta de valorização exacerbada do automóvel e esquecemos de – ou fomos submissos em – dar espaço para as pessoas caminharem ou utilizarem outros meios mais saudáveis e menos poluentes, como as bicicletas.

Ainda, deixamos de lado, por décadas, nosso transporte coletivo, valorizando as autopistas, os viadutos e as grandes avenidas.Erramos muito por concentramos o tripé empregos-serviços-educação nas áreas centrais, obrigando milhões de pessoas ao calvário do deslocamento diário de suas casas aos locais de trabalho-consumo-estudo, diariamente.

Obviamente, essa lógica não se sustenta.

Em uma cidade como São Paulo, caótica, porém cultuadora do carro, onde, por exemplo, mais de 80% da população é contra a retirada do elevado conhecido como minhocão (uma aberração urbana), mexer com o automóvel poderia ser um suicídio político. Mas o Haddad resolveu entrar nessas roleta russa e, parece, vai se dar. Ele e a cidade.

Estudos apontam que, depois do início da implantação do SP 400km, meta 97 do Programa de Metas da Prefeitura, o fluxo de bicicletas nas áreas demarcadas aumentou cerca de 50%. Além disso, pesquisa divulgada pelo jornal Folha de São Paulo apresentou uma aprovação das novas ciclovias acima dos 80%, bem como a melhoria dos índices de aprovação da própria gestão Haddad.

A proposta do Programa é dotar a cidade de 400km de ciclovias até o final de 2015, sendo quase 200km de vias segregadas implementados ainda este ano.

Outro destaque é a lógica de escolha dos trajetos: descentralizada.

Além da área central, já receberam ciclovias a zona norte (Av. Cruzeiro do Sul), Zona Leste (Tatuapé, Vila Prudente e Mooca), Zona Sul (Vila Mariana e Chácara Santo Antônio) e a Zona Oeste, além do bicicletário do Largo da Batata e da passagem sobre o Rio Pinheiros.

E o mapa da expansão segue para os extremos da cidade, valorizando a conectividade com outros modais (ônibus, trem, metrô), dando as bicicletas um status de não apenas lazer, mas sim de meio de transporte para trabalhadores, estudantes e turistas.

Tal lógica, alinhada ao novo Plano Diretor Estratégico, que busca levar o emprego para mais perto de onde se mora e levar moradia para perto de onde se trabalha, e aos investimentos em melhoria do transporte público, em especial dos ônibus municipais e metropolitanos e do metrô, através de recursos do PAC Mobilidade do Governo Federal, vão transformar São Paulo em uma cidade mais atraente aos olhos e ao corpo.

Uma cidade com mais bicicletas é convidativa aos passeios, às praças e aos parques.

Uma cidade com mais pessoas pedalando tende a ser mais explorada, mais ocupada e mais segura, pois sai da lógica do carro, do vidro, da trava, da chave e da rapidez que nos esconde os detalhes.

Uma grande cidade com menos carros, e com mais ciclovias, deixa de ser apenas uma grande cidade, passa a ser, sim, um exemplo a todas as outras grandes cidades.

Uma cidade com novas ciclovias pode representar uma revolução.

Devemos, no entanto, entender que revolução não se faz da noite para o dia mas, para acontecer, é preciso começar.

Acerta Haddad.

Acerta o povo de São Paulo.

E todos ganham.

Até aquele taxista, do começo do texto.

* Luiz Henrique Dias é escritor. Ele abandonou o carro há alguns meses, comprou uma bicicleta e agora faz seus roteiros mesclando táxi, bike, metrô e ônibus, além de, é claro, boas caminhadas. Leia mais em www.luizhenriquedias.com.br e siga ele no Twitter: @LuizHDias.

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

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Publicado às 25 de setembro de 2014 por em Leitura recomendada e marcado , , , , .

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