O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Alberto Goldman, no sítio do PSDB, pergunta: Dilma teria condições de governar o Brasil?
A afirmação completa dele envolve o raciocínio de que “o Brasil do trabalho formal, produtivo, dos seus trabalhadores e empresários, no campo e na cidade, o Brasil da cultura e da tecnologia –essa é, de fato, a elite brasileira – rejeitou, por ampla maioria, o PT e sua candidata. Deu mais votos à Aécio e Marina. Os outros, com todos os direitos que lhes devem ser garantidos e com toda a proteção social que a sociedade lhes deve, são os excluídos. Deram a maioria dos votos à Dilma”. E chega à fatídica conclusão: “A pergunta que qualquer pessoa intelectualmente honesta deve se fazer é se com esse perfil político do eleitorado, ainda que vitoriosa nas urnas, Dilma teria condições de governar o Brasil?”
Perigosa afirmação, de ecos lacerdistas-udenistas. A isso levou a exacerbação de uma pretensa pregação democrática moralista, desligada dos interesses do povo e da nação. Não foi o único a seguir nessa trajetória, mas a declaração mostra que não se deu ao respeito. Haja honestidade intelectual, pedida pelo autor dessas palavras, para justificar atitudes cripto-golpistas.
Os tucanos se regojizaram com as agressões de Aécio Neves a Dilma Rousseff em recente debate. Argumentei que ele teve que escolher o menor de dois erros possíveis: não responder ao desmascaramento político que Dilma empreendeu sobre a figura de Aécio, ou agredir despudoradamente. Perdeu pontos. As pesquisas já delineiam uma tendência majoritária a Dilma. A diferença é que Dilma, presidenta, vem sendo escrutinada dia a dia, hora a hora, condenada pela mídia nativa em todos os terrenos permanentemente. Não tinha como ser “desconstruída” em debate. Aguentou a aposta contra o país e seu governo, promovida por todos os meios, ecoada na campanha de Aécio. Mas Aécio, além de relativamente desconhecido país afora, podia revelar-se, como foi o caso, vazio de conteúdo, carente de estofo moral e político para almejar a presidência da República. O que lhe restou foi o anti-petismo odiento, próprio de “democratas” como Goldman.
De todo modo, o povo decidirá nas urnas. Imprópria, pois, a declaração infeliz, mas pensada, de Alberto Goldman. Para contrapô-la nos termos de um dos fundadores do PSDB, posto aqui o discurso de Luiz Carlos Bresser Pereira, pronunciado em apoio a Dilma no TUCA nesta segunda-feira. Pregação de alguém, no campo democrático, não perdeu o ponto de vista nacional e popular, de afirmação soberana e desenvolvimentista do Brasil.
Ex-ministro do governo FHC, Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas e presidente do Centro de Economia Política. Foi Ministro da Fazenda, da Administração Federal e Reforma do Estado, e da Ciência e Tecnologia. Desligou-se há algum tempo do PSDB, precisamente pela perspectiva de considerar esse partido o representante das forças que sustentam a direita no Brasil, ontem e hoje.
O discurso:
“Meus amigos,
Estou aqui para convocar os intelectuais brasileiros a votarem pela reeleição da Presidente Dilma Rousseff. Esta é novamente uma eleição em que se confrontam pobres e ricos, Progressistas e conservadores, Esquerda e direita, Desenvolvimentistas e neoliberais.
Ora, nesse quadro, não há dúvida em quem votar. É necessário votar no candidato que representa os pobres ou os trabalhadores;
No candidato que é progressista ou de centro-esquerda,
No candidato que está comprometido com os pobres e as novas classes médias, não com os ricos e a classe média tradicional;
No candidato cujo compromisso seja continuar a avançar nas conquistas sociais destes últimos doze anos, não em congelá-las e fazê-las regredir;
No candidato que além de defender os interesses dos pobres, defende também os interesses dos empresários que investem e criam empregos;
No candidato que defende o Brasil, porque defende o nacionalismo econômico e a soberania nacional, ao invés de o liberalismo econômico e a dependência ou o colonialismo;
No candidato que é desenvolvimentista, porque sabe que é necessário combinar mercado e Estado, ao invés de professar o credo neoliberal do Estado mínimo;
No candidato que sabe que não basta responsabilidade fiscal (que não basta controlar as despesas públicas); que é também necessária responsabilidade cambial, ou seja, a busca do equilíbrio comercial ou da conta-corrente do país;
No candidato desenvolvimentista que defende um pacto político social-democrático que envolva os empresários, os trabalhadores e a nova classe média;
No candidato que rejeita a coalizão rentista ou neoliberal – o acordo dos muito poucos que une os capitalistas e as classes médias rentistas aos financistas e aos interesses estrangeiros, que rejeita o acordo de muito poucos em favor de juros reais altos e câmbio apreciado.
Eu sei que essa coalizão de interesses financeiros se declara representar a razão econômica universal;
Eu sei que ela engana a muitos, que acreditam que o neoliberalismo pode levar ao desenvolvimento econômico e mesmo à justiça social;
Mas não tenham dúvida: o neoliberalismo aprofunda sempre as desigualdades, e – o que é pior – leva sempre os países em desenvolvimento ao baixo crescimento e à crise financeira;
Sim, ao baixo crescimento e à crise da dívida externa, porque o liberalismo econômico defende déficits em conta-corrente crônicos, que mais cedo ou mais tarde levam o país a quebrar e a pedir socorro ao FMI.
Meus amigos, no próximo domingo nós, brasileiros, temos uma decisão crucial a tomar:
– Ou continuamos a promover o desenvolvimento econômico e a diminuir as desigualdades, ou nos entregamos ao rentismo e ao neoliberalismo;
– Ou nos inserimos na economia mundial em termos competitivos, ou nos submetemos aos países ricos;
– Ou continuamos a construir uma nação que cresce com diminuição das desigualdades, ou entregamos nossa soberania aos interesses estrangeiros.
A presidente Dilma está a um passo de ser reeleita.
Os pobres sabem que ela os defende, e por isso votam nela; já os ricos, votam praticamente todos no candidato da direita, porque assim defendem seus interesses.
Os rentistas estão hoje ressentidos. Doze anos de governo de esquerda já basta para eles.
O sistema financeiro e seus economistas, que representam os interesses rentistas e externos, reúnem todas as suas imensas forças contra a presidente Dilma Rousseff.
Mas isto não impedirá que Dilma seja reeleita. Mas isto não impedirá que o Brasil continue realizando uma revolução democrática e progressista.
Muito obrigado,
Luiz Carlos Bresser-Pereira”
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