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Acaba de sair do forno: “Revolucionários sem rosto – uma história da Ação Popular”, do jornalista Otto Filgueiras. Não o li ainda, por suposto, mas já o adquiri e convido a todos para que conheçam o livro. Em sua 1ª edição, ele foi publicado em agosto deste ano, e será “lançado” no próximo dia 11 de dezembro, quinta-feira, às 20 horas, no Espaço Latino Americano, na rua Abolição, 244, Centro.
O tema da Ação Popular na história da esquerda brasileira merece mesmo estudo e memória. Incrível sua resiliência, mesmo depois da vasta diáspora que viveram seus quadros, muitos dos quais ainda hoje atuantes na esquerda e mesmo em outras formações políticas como o atual PSDB.
Entre nós do PCdoB, escreveram importantes testemunhos dessa história em “História da Ação Popular – Da JUC ao PCdoB” de Haroldo Lima e Aldo Arantes, (Editora: Alfa-Ômega, Ano: 1984), que marca profundamente os destinos do PCdoB desde o ingresso de parte da AP no PCdoB nos anos 1970. O trabalho de memória do Partido, organizado pela Fundação Maurício Grabois tem inúmeros testemunhos de quadros oriundos da AP, entre os quais seu próprio presidente atual, Renato Rabelo. Eu mesmo coordenei uma publicação – “Vidas, veredas: paixão”, escrito por Luiz Manfredini (Editora Anita Garibaldi. 2012) – que percorre a trajetória de vários desses quadros que hoje integram a direção nacional do PCdoB.
De fato, eu “meio que vim da AP”, o que só pode se entender no contexto da época dos anos 1970. Na mais feroz clandestinidade, às vésperas da eclosão da Guerrilha do Araguaia, meu recrutamento ao PCdoB se deu no último trimestre de 1972 e se concluiu em março de 1973. Criamos o PCdoB em Ribeirão Preto, onde estudava na Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto. Fizemos um trabalho frutífero na ocasião, até os eventos da Chacina da Lapa em 1976, que acabou por me obrigar a mergulhar na atividade absolutamente ilegal.
Nossa atividade política e no movimento estudantil era intensíssima (elegemos um vereador nosso em 1976, pela legenda do PMDB, por exemplo). Mas estudávamos ferozmente – grupos de estudo, cursos clandestinos, horas e horas de estudo individual, madrugadas adentro, para fazermos a opção partidária. Na época a debatemos entre PCdoB, ALN e o PCB. Vingou o PCdoB.
Só vim a saber, entretanto, que tal formação – essencialmente marxista, mas onde avultava, já naquele tempo, o interesse pelo Brasil, as particularidades históricas de sua formação nacional – se dera sob influência do ramo do PCdoB que houvera recém-ingressado no PCdoB. Não havia como sabê-lo, nem por quê, dada a compartimentação estrita que vigorava na clandestinidade. Vim a saber por volta de 1981-82 que eu houvera integrado a “Estrutura 1” do PCdoB de São Paulo, convivendo paralelamente com a “Estrutura 2”, isto é, aquela que viera do próprio tronco do PCdoB (que contava, por exemplo, com Dynéas Aguiar, depois voltando do exílio também Diógenes Arruda e João Amazonas, entre muitos outros. Aliás, estranhava muitos companheiros do movimento estudantil que, tinha certeza, tinham as nossas posições mas com os quais eu era “proibido de manter contatos”. São coisas do tempo.
Por isso, vou ler o livro com um sabor especial de crítica e memória. Também, porque Otto Filgueiras é um baiano “velho de muitas guerras”, com 35 anos de militância jornalística, que sempre teve lado bem definido na política e é um excelente repórter, com inúmeros prêmios conquistados. Segundo a apresentação do livro, ele faz um gigantesco trabalho de aproximação histórica a partir de fontes primárias e pesquisas de um verdadeiro jornalista investigativo. Trata-se da primeira parte da saga da AP, que vai até 1968, pelo que ficaremos ansiosamente no aguardo da parte final, pós-1968.
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