O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Afinal, chegaram os sessenta. Cumpro-os nesta semana que se abre. Frequentarei doravante novas filas, se quiser.
Não é hora de lembrar o que imaginava ser ou onde estar aos sessenta – isso variou tanto ao longo dos anos! Mas fico espantado às vezes com tudo que rolou desde então. Só aqueles anos 1970, terríveis e dourados, de sombra e luz, opressão e sentimento libertário, podem explicar a trajetória percorrida. Nada estava escrito nas estrelas, ao contrário do que pensava na ocasião, felizmente.
Em Ensaio sobre a cegueira, Saramago nos disse por uma personagem que “sempre chega um momento em que não há nada mais a fazer senão arriscar”. Arriscar foi o lance. Nas circunstâncias dadas, mantenho o mesmo sentimento de que foi bom ter arriscado a querer mudar o mundo.
Sou grato à vida por tudo que me orgulha ter construído – companheira, filhos, netos, respeito recíproco com meus pares e paixão pelo ambiente de livre consciência com que construímos a luta que me motivou desde os dezoito anos.
Viver em função de uma consciência crítica não nos faz mais felizes necessariamente (sofre-se, também, pela incompletude dos desígnios). Porém, propicia o sentimento de liberdade, coerência e integridade indispensável a uma vivência social desalienada. Faz pulsar sentimentos civilizatórios de justiça e igualdade social. Sentir-se parte integrante, em escala nano, da grande obra humana por superar a pré-história social.
Em termos de sentimentos, hoje sou mais cético quanto ao humano: idealizá-lo é empobrecedor e reducionista. Mas em termos de práxis prossigo no rumo, alimentado pelo ódio às injustiças e aos regimes sociais iníquos.
O horizonte continua adiante, o melhor é continuar a persegui-lo.
Como nas palavras de Roberto Bolaños, em Amuleto: “El secreto, amigos míos, no pienso llevármelo a la tumba (a la tumba no hay que llevarse nada). El secreto reside en los nervios. En los nervios que se tensan y se alargan para alcanzar los bordes de la sociabilidad y el amor. Los bordes espantosamente afilados de la sociabilidad y el amor.”
Em uma palavra, amor à vida, ao companherismo. A amizade e companheirismo que se faz ao longo da estrada é o que fica – e encanta.
Parabéns por ter chegado aos sessenta com tamanha lucidez.