Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

Memória, verdade, anistia

Dilma_Rousseff_se_emociona

A presidente Dilma Rousseff se emocionou e chorou durante a cerimônia de entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, ao fazer referência aos brasileiros que perderam parentes e amigos no combate à ditadura. 10/12/2014

 

Apreciei deveras a entrevista do amigo e companheiro de lutas José Luís del Roio ao Estadão neste domingo, sobre os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade.

Recomendo a leitura: Por justiça 

Na essência, o historiador e ex-senador italiano, diretor do Instituto Astrojildo Pereira, fala por todos nós quanto a que o direito à memória e à verdade é fundamento para o aprofundamento da democracia no Brasil. Ressalta o ineditismo da iniciativa do governo brasileiro, produzindo pela CNV um documento de Estado, o que “modifica a sensibilidade sobre a memória do período”.

Para ele, a coisa vai além: será necessário julgar os crimes da ditadura. Independentemente das críticas respeitosas que ele faz ao trabalho da CNV, o fato é que esse debate vai continuar na sociedade, não apenas quanto à imprescritibilidade de crimes contra a humanidade, como da própria “revisão da Lei da Anistia”. E mais: quanto à cultura de impunidade com que as polícias militarizadas agem na repressão interna, onde não faltam maus tratos, torturas e violação de direitos civis.

Também de forma construtiva, em diálogo com o amigo del Roio, digo entretanto que sua assertiva sobre a questão da Lei da Anistia ter sido um pacto sob a coação de baionetas é unilateral. As bandeiras da anistia, ao lado do fim de todos os atos e leis de exceção, mais a convocação de uma Constituinte livre e soberana, unificaram toda a resistência democrática enfim vitoriosa. Quer dizer, a Anistia nos permitiu alavancar ainda mais a resistência com a volta de centenas de exilados, e ter assestou golpe profundo na ditadura. Portanto, não foi uma dádiva, mas uma conquista, poderosa conquista da luta, que se fez sob aquelas determinadas circunstâncias e correlação de forças, as mesmas que superaram a ditadura em 1985 sob o Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves presidente.

Revisar a lei da Anistia, sob a conjunção de forças atual, foi negado pelo STF. Mas restará sempre a luta por completar o direito à memória e à verdade com o direito à Justiça, para completar o resgate a dívida com as vítimas e seus familiares, amas sobretudo para que a nação brasileira se encontre com seu destino democrático. Outras instituições deverão se pronunciar, notadamente o STF, quanto a rever a jurisprudência que impede a punição de torturadores e mandantes dos crimes perpetrados.

Certa ocasião, o célebre professor Goffredo da Silva Telles Jr. me dizia (anos 90) que a derrota ideológica dos golpistas de 1964, levaria tempo para repor o papel da instituição no cenário político com protagonismo em sua missão constitucional. Na vida das nações o tempo é prolongado e indispensável para aquilatar os erros e acertos e reformular caminhos.

Uma coisa é certa. Mais cedo ou mais tarde, as instituições de Estado precisam se encontrar profundamente com os interesses nacionais e os do povo brasileiro. Isso vale também para as FFAA, mais ainda para elas. Fazer Justiça, no caso, é elas reconhecerem o erro básico da época foi rasgar a Constituição, ou seja, o próprio golpe, como diz o amigo del Roio. É como diz o editorial do vermelho.org: “o pedido de desculpas das instituições… engrandeceria as FFAA, hoje totalmente dedicadas ao cumprimento patriótico das suas funções constitucionais”.

Talvez seja cedo historicamente para isso. Por isso, o pronunciamento da Presidenta Dilma foi um acerto fundamental, próprio de estadista, pois ao tempo em que promoveu o reconhecimento do Estado sobre os crimes de tortura cometidos na ditadura, reconheceu o pacto da anistia. Creio ter sido a atitude mais madura e elevada para a ocasião e suas responsabilidades à frente da nação.

Por seu caráter histórico posto aqui o discurso da Presidenta Dilma na ocasião:
Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, na cerimônia de instalação da Comissão da Verdade

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

2 comentários em “Memória, verdade, anistia

  1. paulobretas
    15 de dezembro de 2014
  2. Antonio Volney Cesar Rebelo
    15 de dezembro de 2014

    a comissão da VERDADE em ALAGOAS foi limitada e não ouviu muitos dos familiares das verdadeiras vítimas da DITADURA MILITAR, a exemplo dos PARENTES e MILITANTES de RUY SALLES COSTA, o primeiro filósofo MARXISTA ALAGOANO. Aqui em ALAGOAS a politicalha atingiu até a COMISSÃO DA VERDADE, limitando a investigação aos esquerdistas pos anos de chumbo. Quem participou diretamente dos treinamentos em PALMEIRA DE FORA e os que se refugiaram em RONDÔNIA, estamos fora do RECONHECIMENTO pela COMISSÃO DA VERDADE em ALAGOAS. Lastimável.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 277.921 outros seguidores

Categorias

%d blogueiros gostam disto: