Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

O inimigo perfeito

O companheiro de luzes e compromissos, Daniel Sebastiani, escreve esse pequeno artigo sobre os bárbaros atentados perpetrados na França, anteontem. Gostaria de tê-lo escrito. Então o divulgo para partilhar com vocês. Lutar contra um regime injusto, suprimidor das liberdades, pode justificar recurso às armas. Praticar terrorismo, sem que seja contra um Estado opressor, mas em nome de uma religião, é um profundo contra-serviço à causa progressista dos povos e nações em busca de sua afirmação. O repúdio ao atentado deve ser um ato de afirmação das liberdades, da luta organizada do povo, das perspectivas humanistas e avançadas para a sociedade.

 

“O atentado contra a revista Charlie Hebdo, em Paris, traz à tona, mais uma vez, o fenômeno do terrorismo de matiz fanático-religiosa. Neste momento, além do justo repúdio ao ato e da solidariedade às vítimas, surgem todo tipo de análise quanto à “guerra de civilizações” e seu corolário de xenofobismo.

Ao analisar de forma séria a história, podem-se constatar os seguintes processos:

  1. O crescimento do fanatismo religioso, de forma significativa em termos Mundiais, com a criação ou reforço de todas as organizações mais conhecidas como a Al Qaeda, o Hamas, o estado Islâmico, entre outras, ocorre após o fim da Guerra Fria e a queda da URSS;
  2. Todas essas organizações ou tiveram apoio explícito, em armas e dinheiro, dos EUA e potências ocidentais, como é o caso da origem da Al Qaeda na luta contra a USS no Afeganistão, ou indireto, através de aliados como a Arábia Saudita e o Qatar, até há pouco tempo financiador da organização que originou o estado islâmico, ou, mesmo, através de ações de desestabilização de governos contrários aos interesses dos EUA e aliados, como foram os casos da Líbia e Síria, hoje viveiros dessas organizações terroristas e ainda podemos citar o combate à OLP que têm levado ao crescimento do Hamas, financiado por monarquias islâmicas pró-EUA.
  3. Através de uma campanha mediática de demonização do islamismo.

 

Cabe perguntar como estes ingredientes históricos se combinam em um processo que leva ao crescimento do fanatismo.

Ao somar a destruição dos estados nacionais de natureza laica do Oriente Médio, por parte dos EUA e da OTAN no pós Guerra Fria, como o Iraque, a Líbia, a Síria e outros, à falta de perspectivas dos jovens do mundo todo e, particularmente, do Oriente Médio, diante da crise do capitalismo, da atual inanição do projeto socialista mundial e da morte do sonho de um estado árabe moderno e laico Pan-Arábico, de líderes como Nasser, têm-se aí um conjunto processual importante.

Ao levar em conta que a Europa e os seus trabalhadores têm sido uma das principais vítimas da crise capitalista de 2008 e que seu descontentamento, com a sua força e sua tradição de luta, pode ser uma ameaça ao sistema; somado ao fato de que a falta de perspectivas da esquerda tem feito com que as forças anti-sistêmicas sejam capitalizadas pela extrema direita xenófoba; e levando em conta que, desde a década de 30 do século XX, as classes dominantes das potências ocidentais têm preferido se aliar a esta direita contra a esquerda; têm-se aí outro conjunto processual importante.

Finalmente, cabe constatar que o papel de policial mundial dos EUA, e os enormes lucros de seu complexo militar-industrial, perderam parte da razão de ser com a queda da URSS; é necessário justificar os gastos militares e a ação bélico-imperialista dos EUA e OTAN no mundo com algum “inimigo global” e que, e aí reside o essencial, é preferível combater e polarizar ideologicamente no Mundo com um atrasado e obscurantista fanatismo religioso, obviamente sem legitimação histórica, do que com uma tradição iluminista – marxista, na essência laica, humanista, racional e generosa e que aponta para o socialismo, ou seja, um futuro histórico legitimador de lutas anti-sistêmicas.

Mundo com um atrasado e obscurantista fanatismo religioso, obviamente sem legitimação histórica, do que com uma tradição iluminista – marxista, na essência laica, humanista, racional e generosa e que aponta para o socialismo, ou seja, um futuro histórico legitimador de lutas anti-sistêmicas.

Conclusão: não deve se buscar os principais responsáveis pela morte dos jornalistas no fanatismo e no Oriente Médio, mas sim nos interesses dos capitais globalizados e nas capitais dos EUA e dos países da OTAN.”

Professor de História da Fundação Liberato Salzano-NH/RS. Membro do Comitê Estadual do PCdoB-RS.

Professor Daniel V. Sebastiani – sebastiani1917@gmail.com

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

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Publicado às 8 de janeiro de 2015 por em Leitura recomendada e marcado , , , , .

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