Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

A queda de preço do petróleo em 2014 e a lógica do Reino Sunita

Duque

A queda dos preços do petróleo em 2014 – que, frente a 2013, alcançou 50% – é um desses movimentos tectônicos que altera o panorama econômico e a geo-estratégia mundiais, firmando ganhadores e perdedores que marcarão de forma assimétrica o desempenho dos blocos econômicos. O tema mereceu atenção insuficiente, todavia. Por isso, é com prazer que posto uma análise inicial de Luiz Eduardo Duque Dutra, economista estudioso do assunto, grato amigo de quem sou admirador. Nesta primeira parte, ele analisa a lógica que levou o reuino sunita da Arábia Saudita e intervir assim no mercado, e o que deriva disso para ganhadores e perdedores. Espero, num segundo momento, entrevistar o Autor para investigar o assunto do ponto de vista da economia política.

Luiz Eduardo tem avançadas posições acadêmicas e políticas, de formação marxista. Atuou no Conselho Nacional do Petróleo e colaborou com a ANP como chefe de gabinete do Diretor Geral da Agência (Haroldo Lima).

Gostaria que o artigo provoque uma maior reflexão e debate, para o quê as páginas deste blog estão abertas. Boa leitura.

 

A queda de preço do petróleo em 2014 e a lógica do Reino Sunita

Entre os meses de dezembro de 2013 e 2014, o preço do barril (óleo tipo brent) caiu quase pela metade: de 120 para 69 US$/b. Nas últimas duas semanas de 2014, ele esteve pouco acima de 60 US$/b. Embora a indústria seja marcadamente cíclica (a última baixa durou quase duas décadas) e esteja habituada à volatilidade dos preços, a velocidade da queda e a possibilidade de se manterem assim, por alguns anos, surpreendeu muitos. A queda parece mais intrigante, não porque alguns ainda acreditam que o petróleo vai acabar, mas, porque o responsável é o principal exportador: a Arábia Saudita. Importa saber como um país sozinho tem tanto poder.

De imediato, é fácil constatar que quem perde são aqueles que se apropriam da renda petroleira: estados exportadores e empresas produtoras. Na Arábia Saudita, um barril adicional custa menos que dois dólares, enquanto no Golfo do México, o custo marginal chega a vinte. No Canadá, proveniente de areias betuminosas, o barril adicional é bem mais caro: em torno de US$ 40. Assim, ao preço de US$ 80/b, mesmo nas piores condições, a lavra proporcionaria 100% de lucro. Nem tráfico, nem contrabando (a terceira maior indústria do mundo, depois do petróleo e turismo), proporciona tanto retorno.

Embora as margens sejam absurdamente altas, um terço de queda no preço reduz o ganho de todos e, principalmente, daqueles na fronteira de produção. Os perdedores serão os países com custo elevado: Cazaquistão, Rússia, Venezuela, México e Nigéria. Eles dependem da arrecadação no poço para financiar as despesas, o que torna mais grave a perda. Neste ponto, a geopolítica é crucial; afinal, a luta pelo excedente marca a história do petróleo. A mudança se faz em detrimento da periferia e a favor do centro do sistema. Beneficia os consumidores situados na Europa e no Extremo Oriente e prejudica os exportadores; em geral, posicionados à margem e limitados a fornecer matéria-prima. Há uma reversão dos termos de troca que, nas últimas duas décadas, favoreceram os “emergentes”. Pode-se dizer que, antes tarde do que nunca, a natureza estrutural da crise é revelada àqueles que, até aqui, passaram ao largo dela.

Entre os perdedores, está o capital petrolífero. Grandes e pequenas empresas, dedicadas à produção de O & G, deixarão para trás os sucessivos recordes de faturamento (e lucro) dos últimos quinze anos. Serão afetadas as petroleiras privadas sem acesso às reservas menos custosas. As maiores empresas, que conservaram ativos no refino e petroquímica, apenas parcialmente, mitigarão a queda da receita com petróleo. Enfim, todas aquelas que pretendiam desenvolver reservas em novas províncias deverão adiar os projetos, ou revê-los. Mesmo sendo as maiores corporações mundiais, mesmo sendo, em seus respectivos países, as maiores empresas e, por isso mesmo, detentoras de poder de mercado e econômico, a incerteza é enorme quanto à fase que se inaugura.

***

Para entender a lógica da Arábia Saudita – quem, de fato, fixa o preço – é preciso trazer à reflexão algumas noções de microeconomia e organização industrial. A oferta de petróleo pode ser vista como uma escada em um gráfico onde, no eixo horizontal, está disposta a quantidade e, no vertical, o custo (e o preço). Cada degrau da escada corresponde a um patamar de custo, neste caso, denominado marginal; o que vem a ser a despesa de um barril adicional.

O primeiro degrau, claro, é o mais baixo, mas, além disso, é o mais largo. Sua extensão reflete a produção da Arábia Saudita. O país é capaz de extrair até 11 milhões de barris por dia a um custo marginal de apenas US$ 2/b. O degrau seguinte representa seus vizinhos na Península e talvez o Iraque e Irã (em condições normais). Neles, podem ser produzidos até 8 milhões de barris por dia a US$ 6/b. Dois países têm capacidade semelhante: os EEUU (12 milhões de bpd) e a Rússia (10 milhões de bpd). Ocorre, porém, que eles estão à direita do gráfico; na escada, em patamares bem mais altos. No Golfo do México dos EEUU, o custo marginal não é inferior a US$ 20/b e, na Sibéria, ele não seria menor que US$ 12/b. É o baixo custo que dá a Arábia Saudita tanto poder.

É preciso considerar a demanda e saber onde ela se encontra com a oferta e, portanto, o preço. A procura por petróleo é tão interessante quanto a oferta. Graficamente, ela tem inclinação negativa para refletir um comportamento básico: quanto maior o preço, menor o consumo. A demanda pode ser expressa como uma reta bastante inclinada (da esquerda para direita) com duas quebras; uma na parte superior e outra na sua parte inferior. Quanto mais inclinada, mais “inelástica” em relação aos preços. O consumo é pouco sensível ao aumento (ou queda) dos preços, muito provavelmente, porque o custo de substituição (por outra mercadoria) é elevado. Diz-se, por isso, que o comprador está capturado pelo vendedor. É o que acontece com o óleo Diesel e a gasolina e explica o alto preço e a tributação. Todo o fisco (e petroleira) sabe(m) que um aumento gera uma queda do consumo proporcionalmente bem menor; o que resulta em maior receita –interesse de ambos.

Contudo, todo o poder tem limites. Acima e abaixo das quebras, o comportamento da procura é bastante distinto. Nos extremos, a reta de demanda se achata. Reflete a maior sensibilidade ao preço. Qualquer aumento, ou queda, tem efeito nas vendas. É porque, abaixo de US$ 50/b, o óleo não tem concorrente. Uma queda adicional reduziria ainda mais a presença das demais fontes energéticas. Acima de US$ 120/b, é curioso: é o oposto, mas, a velocidade da mudança é a mesma. Um preço maior viabilizaria as alternativas e expulsaria o petróleo do mercado. Até a liqüefação do carvão (para fazer gasolina) tornar-se-ia viável. A este patamar, o custo de substituição perde importância e o poder de fixar o preço é corroído.

No gráfico imaginário, ao se juntar a curva em degrau da oferta e a reta duplamente quebrada da procura por petróleo é possível entender, primeiro, o papel da Arábia Saudita e, em seguida, sua lógica. Para que o oligopólio faça jus a seu lucro, a escada da oferta deve encontrar a demanda em seu trecho mais inclinado; ou seja, entre US$ 120/b e US$ 50/b. Na falta de cooperação entre os produtores, cabe a Arábia Saudita definir o preço. Para um consumo de 92 milhões de barris, se o resto do mundo ofertar 82 milhões e a intenção for manter os preços, no final do dia, ela completará a quantidade que falta: 10 milhões de barris e, assim, igualará a produção à procura.

Contudo, os demais exportadores são Rússia, México, Noruega, Cazaquistão e Canadá, para ficar só neles, que não participam da Opep. Assim, se no final do dia seguinte, a produção do resto do mundo e dos membros da Opep somar 84 milhões de barris, caberá aos sauditas diminuírem a produção, para manter o preço do dia anterior. O conforto do país é enorme: mesmo abaixo da quebra inferior da reta de demanda (i.e, preços menores que US$ 50), em cada barril adicional, seu lucro superará os 1000%! Nada gera uma renda tão extraordinária. Dela deriva um poder que se revela, não só econômico, mas também político.

***

Ao deixar o preço cair, o Reino Sunita reafirma que, a despeito de periférico, dispõe de petróleo barato e em quantidade e, por isso, pode ditar o preço e, por conseguinte, moldar a matriz energética mundial. O Reino exerce sua soberania e defende os interesses árabes, que vão muito além do econômico. Permitir uma queda tão acentuada é um sinal ao mercado. Uma nova fase é chegada e o ciclo inverteu a tendência. A partir de agora, a oferta deve se adequar à procura, que não cresce como no passado.

A adição às reservas e capacidades de produção (muito importante e pouco afetada pela crise de 2008) tem de diminuir. Pesa o fato que Irã, Iraque, Líbia, Síria, Sudão e Egito, mais cedo ou mais tarde, aumentarão a oferta de óleo bom e barato. Além deles, contam o O & G não convencionais norte-americanos, o petróleo profundo no Cazaquistão e na costa Oeste da África, além do ultra-profundo no Brasil. É muito petróleo que chegará ao mercado. Esses projetos estão em andamento e não são os visados pelos sunitas. Viáveis a US$ 60/b, os contratos já estão assinados; no máximo, estão sujeitos a algum retardo e, certamente, a renegociação de seus termos com fornecedores e fisco.

Sabedora de sua posição privilegiada, a Arábia Saudita tem um alvo muito mais amplo. Ao baixar o preço, ela indica que o aproveitamento de reservas não convencionais fora dos EEUU, no polo Norte e daquelas profundas do Golfo do México deve ser postergado. A busca por novos campos também será fortemente desestimulada. No alvo, também está o gás natural que, beneficiado pelo folhelho, tornou-se um concorrente, tanto nos transportes, quanto na petroquímica; mercados tidos como cativos pelo petróleo no século passado. Novos projetos de liqüefação em alto-mar não serão levados adiante, por enquanto. Com o preço um terço menor, a nafta volta a competir com o gás na transformação química e, nas térmicas, o óleo combustível ganha uma sobrevida.

A mensagem é lapidar – não será o preço que viabilizará a concorrência. Situação que deve perdurar enquanto a tecnologia não proporciona uma fonte mais econômica e tão cômoda. Na falta de coordenação, conduzido por seu líder incontestável, o oligopólio impõe uma correção que defende os interesses do grande capital petrolífero e só o deles (ao impedir o ingresso e atenuar o ânimo dos menores e de maior custo). Tudo dentro de uma lógica capitalista que, é preciso sublinhar, no curto prazo, é uma boa notícia para uma economia mundial em crescimento vegetativo e com fluxo de comércio anêmico depois de 2008.

 

 

 

 

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

2 comentários em “A queda de preço do petróleo em 2014 e a lógica do Reino Sunita

  1. paulobretas
    12 de janeiro de 2015
  2. Pingback: A queda do preço do petróleo e crise estrutural capitalista | Blog do Sorrentino - Projetos para o Brasil

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Publicado às 9 de janeiro de 2015 por em Leitura recomendada e marcado , , , .

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