O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.
Estão em curso agendas políticas concorrentes e dispersas para o país. A oposição, apesar de derrotada com sua agenda própria nas eleições presidenciais – um retorno ao passado – mantém em tela um terceiro turno eleitoral. Não debate propostas para o país, apenas se esmera em encurralar a presidenta Dilma e flerta com aventuras como a do impeachment. Está no papel da oposição, digamos, mas não se dá conta de que dificilmente ela própria capitalizaria o infortúnio nacional.
Surge no Congresso uma agenda política distinta. Nasce com a vitória de Eduardo Cunha galvanizando boa parte da base de sustentação de Dilma. Hoje, tal agenda se imbrica com o “descontentamento do PMDB” (uma reação corporativa e defensiva, PMDB aliás que se dividiu vastamente nas eleições de outubro passado), mas vai muito além desse partido. Em parte, por ora, mobiliza uma pauta que é própria do Congresso, como o orçamento impositivo e o processamento das medidas provisórias.
Em outros temas, como os da lei do aborto ou da união homossexual, o conservadorismo vitorioso nas eleições ao Congresso as paralisará, mas há que entender que são temas da sociedade e que dividem a própria sociedade. E há também o tema da reforma política, tendendo a ser pautada de modo absolutamente conservador e restrito à “classe política”, e não voltado para os anseios da sociedade melhorando a qualidade da representação política com aprofundamento do seu sentido democrático e pluralista. Jamais o Congresso brasileiro deveria dar as costas ao amplo debate reclamado pela sociedade civil em torno do tema.
Entretanto, tal agenda no Congresso em nada está se voltando até agora para os grandes e ingentes dilemas nacionais da hora, em termos de política econômica e social, por exemplo, visando ao desenvolvimento. Pior, elas podem rapidamente evoluir para uma agenda concorrente e oposta ao do governo, a atentar para o humor social e as pressões da mídia e de grandes corporações do país. Quer dizer, é latente o ímpeto de dobrar o governo. Flertará com o impeachment? Até onde o país suportará tal concorrência de agendas?
Respondo, em rápida digressão: talvez em rumo assemelhado ao dos resultados da célebre Operação Mãos Limpas, na Itália, partindo e retroalimentando a desmoralização do sistema político, alimentando e sendo alimentada por uma opinião pública sincera, mas fabricada e manipulada nessa direção pelos monopólios midiáticos, e ambos os fenômenos se aproveitando da desrreferenciação política de vastas camadas sociais. Nessa ordem-desordem, o Judiciário se propôs a fazer justiça a partir de “juízes de ataque” que, se trouxeram resultados na ordem da justiça, derrocaram o sistema político italiano e desmoralizaram a brava nação com um presidente de araque como Berlusconi. No Brasil, parte do roteiro está em curso, agravado pelos vazamentos seletivos escancarados de processos sigilosos à revelia de um real Estado de direito. O risco no Brasil é real quanto a isso realimentar a exaustão da sociedade com o sistema político e, disso, resultar algo ainda pior.
Por outro lado, a agenda vitoriosa nas urnas, sustentada pela Presidenta em campanha, tarda a liderar os acontecimentos. Após buscar recompor a confiança na economia e compor ministério que desse estabilidade à base de sustentação política, o fato é que ambos os movimentos não passaram até agora pelo teste de estresse. Há ainda o chão estremecido pelas apurações da Operação Lava a Jato, aguardando as decorrências para o mundo político. Enfim, seis semanas passadas de novo governo, não se estabeleceu uma pauta positiva. Evidentemente, sem a liderança do governo em defesa da sua agenda e realizando amplo debate com todos os segmentos sociais, a situação se deteriorará, tanto no plano econômico, quanto social e político. Nisso, será preciso partir da nova situação criada, em especial com o Congresso – são duas instituições, Executivo e Legislativo, que estão condenados a se entender, a negociar, em benefício do país.
O quarto componente é o que também está faltando: a agenda própria do bloco político e social que sustenta o atual caminho brasileiro, há quatro eleições presidenciais consecutivas. São forças que se alteraram ao longo desse período, mas demonstraram vigilância e vitalidade no segundo turno do ano passado. Primeiro, não bastam agendas partidistas, seria bisonho a esta altura dos acontecimentos. Segundo, não basta a essas forças a agenda do governo, tem que ser uma agenda para disputar a sociedade com opiniões e movimentos próprios, convergente com a do governo, capaz de criticar e até demarcar com o governo em casos concretos, mas também e principalmente capaz de se contrapôr à nova agenda conservadora nascente e agir em defesa do mandato de Dilma quando a luta política se exacerbar.
Falta unir essas forças – político-partidárias, sociais, intelectuais, enfim, progressistas e democratas — em torno de pontos nodais ou plataformas imediatas e concretas, para a unidade na ação que se requer conforme a conjuntura política, que aliás não faltam: em defesa da Petrobrás e da engenharia nacional, contra a corrupção; pelo financiamento público de campanhas, em defesa do mandato legítimo conquistado nas urnas pela vontade da maioria do povo brasileiro.
Deve-se atentar para o que o sociólogo alemão Hartmut Rosa, bem lembrado pelo editorialista Alcino Leite Neto, da FSP, afirma: “O ritmo acentuado das mutações socioeconômicas e tecnológicas excede permanentemente as possibilidades das estruturas e dos horizontes temporais da política democrática e deliberativa, que tende ela mesma, na sociedade da aceleração, e justamente em razão da forte dinâmica social, a reduzir o ritmo dos processos de formação da vontade e da tomada de decisão”. E, da parte do editorialista, fazer força para não dar razão à reflexão de que isso “explicaria talvez o desânimo de muita gente com a lentidão da classe política e o crescente alheamento desta classe em relação às urgências do mundo atual. Também explicaria tanto a expansão do conservadorismo no mundo — devido, em parte, à dificuldade de as pessoas entenderem a realidade complexa e mutante–, quanto a impotência das esquerdas para fixar um projeto de futuro comum para grupos sociais com demandas tão imediatas e heterogêneas”.
O fato do momento é que o tempo político urge. Não basta lamentar falta de iniciativa do governo. A esquerda brasileira prestou grandes serviços à luta dos brasileiros, saberá cumprir as exigências da hora. É preciso que mobilize amplas forças e ponha-as em movimento, com uma agenda convergente com a do governo mas que vá além dela. Esse o papel dos líderes políticos nesta hora – conversar ativamente, encontrar as composições necessárias e possíveis, articular a ação política e social de forças que são muito maiores que as da oposição.
Comentários