Blog do Sorrentino – Projetos para o Brasil

O blog Projetos para o Brasil visa a ajudar a organizar o debate em torno do Brasil, suas contradições e perspectivas, à luz das ideias de um projeto socialista para o país.

O que virá a seguir?

Constituiu-se um vazio político no país, carente de alternativas/estratégias para retomar caminhos de crescimento econômico, e de lideranças políticas para conduzi-las​,​ superando a crise.

vira+seguir

O vazio é uma contradição em termos, porque nada é tão povoado quanto o vazio na política. Mas falta uma força e uma nova estratégia – sem o que se navega sem bússola – e aquelas lideranças que as empolguem.

O que está em discussão é o esgotamento do modelo de crescimento adotado no Brasil, no quadro de forças no mundo atual. O país vive, mais propriamente, uma crise macroeconômica, com o profundo desarranjo das contas públicas e atado, em muitas dimensões, ao tripé dominante dos juros, câmbio e superavite fiscal todavia dominante.

No Brasil, precisa-se transformar a economia de demanda – renda, emprego, consumo, crédito – numa economia de oferta, promovendo a produtividade da economia e sua competitividade mundial. Reconhece-se a acentuada desindustrialização precoce do país, face à chamada “doença holandesa” (maldição dos recursos naturais) que deixou o câmbio cronicamente apreciado, comprometendo os termos de troca da indústria nacional.

Precisa-se de inovações estruturais: promover reformas estruturais que, hoje, estão mais dificultadas que no passado recente, no quadro de forças do governo Lula; e investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Incentivar a indústria nacional depende de enfrentar a valorização crônica da moeda brasileira, o que implica numa equação macroeconômica para o desenvolvimento. E os serviços públicos precisam de um salto, em especial da educação e saúde, com financiamento e gestão que estão, ainda, dificultados no horizonte em face do orçamento público. É a isso que se refere a necessidade de uma nova estratégia. O que todos se indagam é como o governo Dilma sinalizará o que virá a seguir ao ajuste; certamente não faltam agendas positivas para o governo e possibilidades de recuperação de aprovação ao governo, mas a estratégia para a retomada do crescimento econômico pede mais clareza.

Mas do outro lado, do lado da oposição, também falta uma nova agenda para se dirigir ao povo. Fazer o que? Iam pôr ‘Levys’ mais duros na economia? Na verdade, o ajuste deles (embora o de Dilma-Levy os deixem na defensiva) é o ajuste de mercado, a austeridade, recessão assumida com desemprego para botar as coisas “em ordem”. Que novo crescimento econômico vão obter com isso? Que vão propor frente à desindutrialização? Eles precisam forjar um novo consenso, para encaixar nele o fim da partilha no petróleo, atrelar-se aos mercados financeiros de modo mais visceral, et etc. Vão propor isso? Com que cara?

Na verdade está claro: deixar o país e Dilma sangrarem para aplianar caminhos ao ‘novo’ consenso. Enquanto isso, suas usinas vão tentar forjé-lo. Suas usinas estão a pleno vapor, a realidade hoje está inclinada em seu favor – dado o quadro internacional e, nele, a realidade econômica do país.

A esquerda brasileira, capitaneada pelo PT, reconhece abertamente um “vazio teórico (sic) de análises, reflexões e iniciativas sobre o que vem acontecendo no Brasil e no mundo”, o que é só em parte o reconhecimento de limites de horizonte dessa força política como governo, como evidencia o esforço que concedeu às reformas estruturais, o eixo político em que assentou as alianças desde 2007 promovendo a descentração do núcleo de esquerda, a própria “teoria” dos social-desenvolvimentismo com que procurou fundamentar o caminho percorrido.

Nesse quadro econômico e macro-econômico, o ajuste promovido por Dilma não é agenda, mas precisa ser apenas mera preliminar para ganhar margem de manobra e depender menos da confiança financeira.

Mas é na política que a crise se conforma e é na política que se sai dela. De um lado e de outro faltam liderança, os que capitaneiem, dada a situação de Dilma neste momento, e tampouco a de Aécio, pois já não estamos em outubro passado.

No vazio da ação do Executivo, o Congresso ocupa espaço, tenta impor agenda própria, de corte conservador – refletindo comportamentos conservadores de nossa sociedade. Nesse sentido, não há outro modo senão o de Executivo e Legislativo se entenderem. Mas há o sentido partidário desse conflito, envolvendo o papel do PMDB e o do PT no governo.

O PMDB é o que é: o grande centro do espectro político, sagaz, experiente e profissional na ocupação de espaços. Por ora vão impondo sua agenda política própria, fazendo-se credores dos arranjos em curso. Argumentei em artigo anterior essa agenda se impondo na conjuntura.

O PT vive uma crise, tema de seu próximo Congresso. Precisa sustentar o governo, mas vastos setores, “autonomizados” como núcleos de poder paralelos à direção partidária buscam, contraditoriamente, descolar-se dele em certo grau. Não é por seus limites que o PT e a esquerda são atacados vilmente, mas eles existem e precisam ser enfrentados, notadamente quanto à obtenção de consentimento para liderar, e não apenas impor-se pela força, além de uma atualização da estratégia para a retomada do crescimento econômico.

Para o governo e para a oposição há dilemas pelo caminho, com altos e baixos, exacerbações e aparentes calmarias. Mas é, ainda, uma situação instável, perigosa e indefinida quanto ao desfecho, nesse vazio político.

Sobre Walter Sorrentino

Sou médico, nascido em 1954, paulistano. Membro do Comitê Central desde 1988, e Vice-Presidente do Partido Comunista do Brasil desde 2015.

2 comentários em “O que virá a seguir?

  1. Claudio Machado
    20 de maio de 2015

    Excelente contribuição ao debate.

    Tenho muitos amigos no PT(vim de lá, onde também fui dirigente estadual aqui no Espírito Santo). Sei que muitos comungam com esta análise.

    Veja como termina uma análise pertinente ao tema, publicado no blog do Zé Dirceu: O período atual é o mais grave que o partido enfrentou. Há uma decisão evidente das forças conservadoras de destruir o PT e de derrotar — se não derrubar — o governo Dilma. É preciso combater em diferentes frentes e são necessários um novo acordo partidário e uma nova direção para esse período histórico. Antes que seja tarde.

    Se me permite(m) eis o link, para a íntegra: http://www.zedirceu.com.br/um-novo-acordo-partidario-e-uma-nova-direcao-para-esse-periodo-historico/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Nada+pior+que+o+distrit%E3o

    Claudio Machado
    (filiado ao PCdoB desde 2008 e dirigente estadual)

  2. Roberto Gieseke
    20 de maio de 2015

    Bom o texto do Walter, aparentemente esclarece e aponta o norte a ser tomado. Sempre que possível gosto de ler o Blog, afinal é uma boa referência. Mas entendo que preciso ler mais umas vezes este texto. Uma coisa que me chamou a atenção são alguns erros, coisa rara nos textos do blog do Walter, cheguei a desconfiar da procedência.

    Apareceu nomes ou teorias que não conhecia doença holandesa:
    A maldição dos recursos naturais, também conhecido como o paradoxo da abundância, (em inglês; Resource curse ou paradox of plenty ) refere-se ao paradoxo em que os países e regiões, com uma abundância de recursos naturais, especificamente recursos não-renováveis, como o mineral e combustível, tendem a ter menos crescimento econômico e piores resultados de desenvolvimento se comparados a países com menos recursos naturais. Esta hipótese pode acontecer por diversos motivos, incluindo um declínio na competitividade de outros setores econômicos (causada pela valorização da taxa de câmbio como as receitas dos recursos entre uma economia, um fenômeno conhecido como doença holandesa), a volatilidade da receita do setor de recursos naturais devido à exposição às oscilações das commodities globais de mercado, má gestão governamental dos recursos, ou, instituições ineficientes e instáveis ​​estimulando a corrupção (possivelmente devido ao fluxo facilmente desviado de receita real ou antecipada das atividades extrativistas).
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Maldi%C3%A7%C3%A3o_dos_recursos_naturais

    Os erros não colocam o texto em risco, mas dependendo de quem lê, deve ter certa dificuldade. Gostava de ler as lições da luta operária, era feita para qualquer pessoa que soubesse ler. Agora temos Revista Princípios necessita um estudo melhor, mas é bom. Tive uma professora de português que dizia uma das formas de aprender português é lendo bons livros. E agora com a mudança da ortografia, está mais difícil. mas é o caminho.
    Segue abaixo os erros que verifiquei e meu entendimento:
    Iam pôr ‘Levys’ mais duros na economia?
    No primeiro momento não entendi o obvio, foi procurando algo próximo no Google que entendi: será colocando um ministro Levy (similar) mais duro na economia?

    atrelar-se aos mercados financeiros de modo mais visceral, et etc.
    atrelar-se aos mercados financeiros de modo mais visceral, etc.

    Na verdade está claro: deixar o país e Dilma sangrarem para aplianar caminhos ao ‘novo’ consenso.
    Na verdade está claro: deixar o país e Dilma sangrarem para aplainar caminhos ao ‘novo’ consenso.

    Enquanto isso, suas usinas vão tentar forjé-lo.
    Enquanto isso, suas usinas vão tentar forjá-lo.

    Suas usinas estão a pleno vapor, a realidade hoje está inclinada em seu favor
    Não entendi, seriam os fóruns desta oposição, ou as empresas “Usinas” da oposição.

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Publicado às 20 de maio de 2015 por em Opinião e marcado , , , , , .

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